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28 de mai. de 2022

A Visita de Maria - Uma Interpretação Esotérica


Ref.: Lucas (1: 24 a 56)

Cumprindo a ordem de Gabriel, Maria parte em ajuda a Izabel.

À saudação de Maria, a criança, no ventre de Izabel, “dá saltos de alegria”. Tertuliano, Orígenes, Irineu, Ambrósio e o teólogo Suarez, afirmam que João Batista, já no ventre, tinha o uso da razão. Isto é mais lógico e natural que a “intervenção divina” mencionada por Agostinho. De fato, Max Heindel esclarece: quando um espírito alcança um elevado grau evolutivo já começa a formar conscientemente os seus veículos, no ventre da mãe, em vez de deixar que esse trabalho seja feito inconscientemente pela genitora. Ora, com a consciência que possuía (reencarnação de Elias), João Batista (ainda no ventre de Izabel) exprimiu sua alegria ao encontrar com os companheiros Iniciados, que estavam encarnados como Maria e Jesus (no ventre de Maria).

Izabel, como Iniciada essênia, também não tinha dificuldades em saber que Maria se achava grávida (vers. 42), embora de poucos dias e, por isso, externamente imperceptível.

A resposta de Maria é um cântico maravilhoso, conhecido em toda a cristandade como “Magnificat”, reproduzindo pensamentos do Velho Testamento, sobretudo dos Salmos. Seu início ressalta a diferença entre o espírito e a alma, que o estudante rosacruciano deve distinguir bem. Essa mesma distinção entre espírito e alma se acha em Jó 12:10 Velho Testamento); e em Tessalonicenses 5:23, Hebreus 4:12 (Novo Testamento).

A humildade de Maria que se julgava pequena escrava, não é contradição ao seu regozijo de ser chamada bem-aventurada por todas as gerações. Escravo de Deus não é o que seja forçado a isso, mas o que voluntariamente se submete ás leis divinas, sabendo que nisso está a verdadeira liberdade. Como disse Paulo: “ Lá onde habita o espírito (vivência elevada), é que existe a liberdade” (II Cor. 3:17). Ao contrário, o ser mundano que se julga livre não pode fugir das leis mantenedoras da harmonia universal que lhe trazem o justo corolário de sua ignorância: o sofrimento.

O reconhecimento de que Deus é poderoso, mas ao mesmo tempo exerce misericórdia, de geração em geração (através dos renascimentos), é uma expressão de louvor. Tem, sentido idêntico ao Salmo 103:17 – não de temor, mas de fidelidade e respeito.

Os versos 51 a 53 estão conforme I Reis 2:5-7; Eclesiastes 10:14; Salmos 34:10-11; 107:9, 148:6; e Jó 5:11, 12:19 e 22:9. Estas citações de Lucas e do Velho Testamento constituem mais uma defesa ao Renascimento, pois dificilmente sucede que os poderosos sejam derrubados e humildes exaltados, do ponto de vista material. O abuso ou mérito de uma vida é que trazem a consequência inevitável em futura encarnação, pelo mau uso ou bom uso dos talentos divinos.

INTERPRETAÇÃO ESOTÉRICA

O aviso para o próximo encontro com o Cristo Interno leva o aspirante à montanha (elevação interna), em meditação e vigília, no convívio com almas afins e a serviço delas (Maria foi à região montanhosa da Judéia).

O “Magnificat” é um canto de alegria da alma que sente o influxo da graça, convicta da pequenez e sua personalidade em contraste com a grandeza ilimitada no amor divino que se designa visitá-la. Canta o próximo encontro e união com o Cristo Interno, acrescentando louvores pelos benefícios recebidos em vidas anteriores, pelas correções benditas, lembrando que devemos ser desapegados (pobres) e evitar a cobiça (riquezas matérias) para exercermos a justa administração dos talentos divinos e alcançarmos a Graça.

Maria ficou três meses com Izabel (até nascer João). Isto representa a preparação para levedar as três medidas de farinha (purificação dos corpos mental, emocional e físico) em convívio e mútuo incentivo com almas elevadas, servindo e sendo servido. Mas deve voltar à sua casa, isto é, deve continuamente buscar o seu íntimo, em introspecção, com exercício individual até que ocorra o nascimento.

12 de fev. de 2022

Bastar-se a Si Mesmo

por Gilberto Silos

Ref.: Lucas (12: 21 a 24)

No capítulo 12 de Lucas, Cristo nos adverte contra a ansiosa solicitude pela vida material quando afirmou: "Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer nem quanto ao corpo pelo que haveis de vestir, pois a vida é mais do que o alimento e o corpo mais do que o vestuário".

O cristianismo nos oferece lições práticas de vida, em que virtudes como a perseverança e a coragem são enaltecidas e apontadas como fatores de evolução. Mas, esse estado de espírito de quem encara a vida com otimismo e esperança não se adquire apenas através de leitura. É preciso vivência, ou melhor, é preciso viver. Esse caráter não se forja em pouco tempo, porém, cresce ao longo de uma caminhada sempre amena.

Em primeiro lugar, passamos pela experiência. Posteriormente damos conta do processo de desenvolvimento em nós mesmos. O indivíduo emerge da infância para a adolescência e desta para a maturidade, Em cada um desses momentos críticos vemos que as atividades e interesses da fase anterior são substituídas pelas da atual. Observamos como a natureza está preparando o organismo para o seu novo papel no mundo. Na verdade, ele nos reconcilia com as novas exigências, mostrando-nos as recompensas do período que se aproxima e que vai substituir o que vamos abandonar. Importa é, durante as asperezas da caminhada, não permitirmos que o medo, a inércia e a timidez inibam nossas potencialidades. Max Heindel afirmou enfaticamente que o "único fracasso é deixar de lutar". Somos espíritos, partes integrantes de Deus, e como tal, herdeiros de todos os Seus atributos. Aceitar coisas tais como derrotas, doenças e desânimo, é negar nossa herança divina. Em última análise, é um sacrilégio pensarmos na hipótese de viver sem Deus. Nele nos movemos vivemos e temos nosso ser. Deus é tudo em todos.

O homem deste final de século não consegue ser otimista, deixando-se influenciar pela transitoriedade das situações não lhe passa pela cabeça que tecla essa aparente confusão nada mais é do que a gestação de um bem maior.

Segundo Schopenhauer raramente pensamos sobre o que temos, mas sempre sobre o que nos falta. Será que o que temos não é suficiente para vivermos uma vida plena? Aquilo que lamentamos nos faltar, por acaso é tão importante assim?

O que realmente deve ser importante para nós? A resposta é individual, pois frequentemente alicerça-se em conceitos quase sempre subjetivos. O que é importante e vital para mim, pode ser irrelevante para você. Aquilo que e verdadeiramente importante deve estai no interior do homem. Não pode consistir de aparências ou exterioridades, mas de valores individuais imponderáveis, provenientes de uma vida amadurecida.

 Isto não é uma vã filosofia. A realidade dos fatos já provou que e verdade Uma das coisas que mais impressionou o mundo a respeito de Mahatma Gandhi foi a foto de todos os seus bens materiais quando do seu desenlace: um par de óculos, um par de sandálias, alguns trajes simples, uma roda de fiar e um livro O Mahatma inspirara-se também, na vida de Henry David Thoreau, o "pai da desobediência civil" e nas palavras que esse americano proferiu: "A riqueza de um, homem mede-se pelas coisas que é capaz de deixar para trás". O ser humano ansioso por satisfazer suas necessidades é como uma criança: precisa e quer tudo. Quando amadurece através de uma vida inspirada em princípios espirituais, transforma-se num ser que não necessita virtualmente de nada, porque tudo já é naturalmente seu, pela sua própria origem divina.

3 de ago. de 2019

“Ficais alegres, porque vossos nomes estão escritos nos céus”

por Jonas Taucci

Uma amiga solicitou-me informações sobre os anacoretas: iria elaborar um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso, aqui no Brasil; uma dissertação a nível universitário, ao final de um determinado curso acadêmico).

Aproximadamente 18 séculos depois de seu início pelos desertos do Egito, e depois expandindo-se pela Síria, Pérsia, Capadócia, Armênia e Palestina, uma movimentação (solitária) de pessoas, intriga, assusta e causa perplexidade até nossos presentes dias.

Cristãos, residentes no Egito do século IV DC (aproximadamente no ano 330), abandonaram seus lares, posses, cargos etc. para irem residir no deserto. Moravam solitariamente em cavernas, ou casebres construídos de pedras e folhas, alimentando-se de pão, raízes, e frutas secas doadas por algum transeunte de caravanas. Seus contatos com outras pessoas eram mínimos.

Dedicavam-se a orações, penitencias, jejuns e a escritos litúrgicos: suas roupas logo esfarrapavam-se, e nus, permaneciam nestas condições por décadas.
Esperavam – com este comportamento – aproximarem-se da divindade, de Cristo, de Deus.

O anacoreta cristão fugia, para o deserto, da comunidade temporal a que pertencia na sociedade, para juntar-se – segundo eles – à comunidade espiritual, invisível, que reunia todos os cristãos de séculos anteriores.

E assim, este comportamento que rompia com a sociedade, culminou – com o passar do tempo – em uma nova sociedade nos desertos das localidades acima citadas. Como anacoretas, sabemos da existência de: Antão, Pacômio, Doroteu, Macário, Zózimo, Eusébio, João Clímaco, Alípio, Evrágio Pôntiaco, Gerásimo, Múcio e outros milhares...

Abaixo, certas características suas:

*** Residiam – propositalmente – em lugares distantes cerca de 10 km. de um rio ou fonte, para forçarem uma penitência de ir e vir buscar água. Muitas vezes, carregavam na ida e volta, pedras para dificultar esta atividade.

*** Apesar da vista no deserto, de uma noite com céu maravilhosamente estrelado, ficavam décadas sem contemplar esta cena, por “acharem-se indignos de ver as maravilhas que Deus construiu”. Jamais levantavam seus olhares.

*** Alguns anacoretas, subiam em árvores, e entre os galhos, viviam por décadas, sendo alimentados por visitantes, esporadicamente.

*** Outros, empilhavam pedras, de modo a alcançar uma altura de cerca de 15 metros de altura. Depois subiam ao topo, ficando lá – em oração – por anos a fio.

*** Em troncos de árvores de porte, esculpiam um buraco, fixando residência aí, pelo resto de suas vidas.

Há muitas outras características existenciais dos anacoretas; demandaria um espaço enorme para sua citação, mas penso ser o resumo acima, uma ideia bem aproximada do que foi este movimento.

 (Ele ainda existe, em escala menor, em desertos do oriente).

Há quem conteste – através dos séculos – esta postura isolacionista dos anacoretas.

Os Ensinamentos da Sabedoria Ocidental está entre os que não indicam um estilo de vida desta maneira, onde não há contato algum (ou mínimo) com outras pessoas.

Evoluímos – determinantemente – nos relacionamentos com nossos semelhantes, e jamais através de livros, cursos, textos, palestras, e principalmente isolando-se do mundo e das pessoas. Estas, são a mola propulsora de nossos avanços espirituais.


Em meu parecer – respeitosamente – houve nuances egoístas no retirar-se para os desertos, por parte dos anacoretas: deixaram para trás, semelhantes enfermos e desassistidos; focaram-se apenas em sua salvação (a contramão do desenvolvimento espiritual).

Em uma lição mensal de Filosofia (aos estudantes) de Oceanside, Sede Mundial, início dos anos 60, o tema referia-se a exatamente isto: NÃO HÁ COMO CONSEGUIR UMA ABRANGÊNCIA DE LUZ INTERNA, ABANDONANDO NOSSOS SEMELHANTES, DEIXANDO DE PRATICAR O SERVIÇO.  A lição do amor, pregada por Cristo, o maior iniciado do Período Solar, jamais deve ser esquecida, nem eclipsada por “conhecimento” (muitas vezes canto das sereias).

Esta lição de Oceanside, terminava enfatizando nossas posturas de amor e caridade para com os outros, resultando num “LIVRO DA VIDA” (Apocalipse de João, 21:27) e chancelada por Cristo:


 Ainda que residindo urbanamente, vivemos um estilo de vida anacoreta?

12 de ago. de 2018

Trilhar o Caminho

Imagem: O Caminho para Emmaus por Gemäld Von Robert Zünd 
por Gilberto Silos
Lucas 9 (57-62)
E aconteceu que, indo eles pelo caminho, lhe disse um: Senhor, seguir-te-ei para onde quer que fores.
E disse-lhe Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.
E disse a outro: Segue-me. Mas ele respondeu: Senhor, deixa que primeiro eu vá a enterrar meu pai.
Mas Jesus lhe observou: Deixa aos mortos o enterrar os seus mortos; porém tu vai e anuncia o reino de Deus.
Disse também outro: Senhor, eu te seguirei, mas deixa-me despedir primeiro dos que estão em minha casa.
E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus.
Lucas 9:57-62

A escolha, a decisão de trilhar o caminho da espiritualidade é um impulso interior, uma iniciativa do espírito, não produto de um momento de emoção ou fruto de um pensamento. É um ato de coragem serena, não mera bravata.

Sepultar os mortos e despedir-se dos seus é apegar-se a algo que oferece uma segurança ilusória, aparente. Assemelha-se ao sentimento que assaltou os hebreus no deserto quando ao sentirem falta e saudade das panelas de carne do Egito, erigiram o bezerro de ouro, ou à mulher de Lot que transformou-se em estátua de sal ao olhar para trás e contemplar a destruição de Sodoma e Gamorra. Simboliza uma forma de cristalização.

Para quem quer trilhar o caminho não existe uma só família estabelecida nos laços de sangue. A família é toda a humanidade, como dizia Tomas Payne. Somente esse estado de consciência pode libertar alguém da influencia do espírito de raça que engendra os sentimentos arraigados de clã, família e raça. Isso se torna possível através de uma ruptura com os paradigmas da humanidade comum, pois não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo.

A verdadeira espiritualidade é um caminho, uma trilha. Um caminho leva a um destino.

Consideremos como exemplo concreto, a rodovia que liga São Paulo a Presidente Prudente. Podemos estudá-la detalhadamente, consultando um mapa, calculando os quilômetros que separam as duas cidades, verificando em livros quais as estradas interessantes que a estrada atravessa.  Tudo isso pode ser muito atraente e interessante, mas não será assim que chegaremos  ao nosso destino. Se quisermos ir a Presidente Prudente teremos de iniciar a viagem.

Trilhar o caminho significa por em prática todos os conhecimentos adquiridos, modificar a própria vida, o comportamento, transformar-se constantemente em algo novo e diferente.

Esse processo de transformação é um compromisso sério, ou seja, é mais do que isso, é um comprometimento, uma responsabilidade.

Um cientista pode fazer uma grande descoberta que o projete mundialmente e ao mesmo tempo continuar a ser uma pessoa agressiva, amiga do álcool, das drogas ou de qualquer outro prazer mundano. A sua vida e o seu comportamento não afetarão a sua descoberta. O mesmo não se pode dizer da descoberta espiritual. Por ínfima que seja, ela produz um efeito direto sobre a pessoa. Força a mudança de hábitos e atitudes. Não acontece o mesmo com o ser humano comum, pois o mundo aceita novas verdades desde que não haja comprometimentos.

O objetivo do caminho da espiritualidade é a sabedoria, a totalidade do homema vitória sobre a dualidade (polaridade), a união consciente com Deus, o casamento místico, enfim a consciência cósmica.
O Caminho da Iniciação, do livro: Iniciação Antiga e Moderna de Max Heindel, Cap.: A Iniciação Mística Cristã (veja aqui)
Esse caminho deve ser trilhado com desapego. Os ensinamentos espirituais devem libertar o homem de suas velhas fixações. Porém, sempre há o risco de tornarem-no objeto de novas fixações; Acredita-se ter dado um passo à frente, quando na verdade houve apenas ua troca do objeto de apego. Mudou-se apenas de fixação. Em síntese, a trilha da espiritualidade é o caminho da constante transformação.

20 de mai. de 2018

O Apóstolo em Cada Ser Humano


REF. Lucas 9:62
"E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus." 

Para muita gente ainda contínua um mistério o significado real de a mulher de Lot ter se convertido em uma estátua de sal, após contemplar a destruição de Sodoma e Gomorra. É bom recordar que isso aconteceu porque ela olhou para trás, saudosa. ...

Segundo o Velho Testamento, as duas cidades celebrizaram-se como verdadeiros núcleos de licenciosidade. Eram, portanto, um centro de degeneração.

Encontramos aí um interessante simbolismo ou alegoria. Não se trata apenas de um relato bíblico. É algo muito mais profundo. Mais uma vez deparamos com a história do próprio homem, sempre às voltas com os desafios inerentes ao caminho do progresso espiritual.

Sodoma e Gomorra simbolizam o elemento que, por se corromper, perdeu a sua utilidade, e o seu lugar, dentro do processo evolutivo. A mulher de Lot representa aquele tipo humano incapaz de libertar-se de hábitos nocivos e ideias ultrapassadas. Insensível a estágios ou vivências mais elevados, apega-se a estruturas bolorentas e enferrujadas, embora só possa sofrer prejuízos com essa resistência. Olhando para trás, demonstrou sua ligação com aqueles restos que se consumiam, ao invés de encetar uma nova busca.

É uma perfeita alegoria à cristalização.

O homem comum, é bom ressaltar, traz consigo uma tendência à acomodação. Se, do ponto de vista material, a vida que leva é relativamente "boa", opor-se-á tenazmente, a qualquer tipo de mudança, mesmo salutar à sua formação espiritual.

A acomodação, diante de qualquer análise, surge como algo pernicioso. No Universo tudo se encontra em constante movimento, sempre em direção a degraus superiores. A inércia, por ser contrária às leis naturais, gera reações às vezes violentas. O homem, por ser elemento integrante do contexto cósmico, não deixa de estar sujeito a essa lei.

As transformações constituem uma necessidade evolutiva. São uma manifestação da Lei de Deus, sempre objetivando abir mais amplos horizontes para a humanidade. O homem sofre porque resiste às transformações, insistindo em permanecer impenetrável aos raios da Luz Divina. Às vezes contempla a estrutura em que viveu durante multo tempo ruir fragorosamente. Mesmo assim, cede á tentação de olhar para trás observando demorada e nostalgicamente os escombros. É um indicador de sua cristalização. O curso da própria vida acabará por reintegrá-lo ao progresso. Isso, todavia, ocorre, quase sempre, à custa de muito sofrimento

É importante "tomar do arado e não olhar para trás", como exortou o Cristo .

Conta-se que o conquistador romano Júlio César, quando aportou nas ilhas britânicas, ordenou a seus soldados que queimassem os navios. Assim, ninguém pensaria em voltar, recuando diante de um inimigo até então desconhecido. Lutariam ou sucumbiriam.

A vida costuma encaminhar-nos a situações complexas, em que o recuo se afigura impossível. Segurança interior, autoconfiança, fé, coragem, capacidade de adaptação, são testadas nessas ocasiões.

Temos que estar alertas e preparados para as mudanças. Elas acontecem quando menos esperamos.

Todos nós somos dotados de talentos, em maior ou menor grau de desenvolvimento. O uso desses dons determina nosso crescimento. Há ocasiões em que Deus requisita nossos préstimos em Sua Seara. Essa convocação divina pode implicar em mudanças, talvez até radicais, em nossas vidas. Atenderemos ao chamamento de nosso Divino Pai, ou continuaremos com a nossa já viciada rotina?

Não importa se somos inconscientes disso ou se nos encontramos acomodados, indiferentes ao sofrimento do mundo. Cedo ou tarde seremos chamados a servir. No Início talvez até resistamos. Mas chegará o momento da decisão, em que nossas existências tomarão outro rumo. Saulo era um ferrenho perseguidor dos cristãos. Na estrada de Damasco transformou-se: “Saulo, Saulo, por que me persegues? Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões." Saulo transformou-se em Paulo, assumindo uma nova realidade. Abandonou o invejável "status" de doutor da Lei. Teve a coragem de deixar os de seu credo. Renunciou suas amizades e suas posses, para abraçar as idéias do nazareno, um misto de blasfemo e impostor no entender dos fariseus.

É preciso, entretanto, una férrea disposição para atravessar as agruras dessa fase de transição. Incompreendido, injustiçado, vilipendiado até, o aspirante há de perseverar. Terá muita luta pela frente, sem dúvida. Mas a crueza da porfia não deve abatê-lo. É duramente provado. Cai. Ergue-se. Fracassa novamente. Anima-se de esperança. Aflige·se mortalmente com a decepção. Ascende mais uma vez. Na experiência renova-se. O mundo dele necessita. O Cristo necessita dele. Deus nele habita. Não há razão para temores. Vive na fonte do eterno Bem.

O caminho do apostolado é assim mesmo. Exige mudanças, Crucifica o eu inferior. É como o campanário de uma igreja: largo na base, estreitando-se à medida que sobe. No cume só resta a cruz. Não se pode olhar para baixo, para trás. Só resta subir sempre...

De um editorial da revista Serviço Rosacruz, agosto de 1978

21 de jan. de 2018

A Circuncisão - Uma Interpretação

"A Apresentação no Templo", Philippe de Champaigne, 1648

REF. Lucas 2:21-24

"E, quando os oito dias foram cumpridos, para circuncidar o menino, foi-lhe dado o nome de Jesus, que pelo anjo lhe fora posto antes de ser concebido.
E, cumprindo-se os dias da purificação dela, segundo a lei de Moisés, o levaram a Jerusalém, para o apresentarem ao Senhor
(Segundo o que está escrito na lei do Senhor: Todo o macho primogênito será consagrado ao Senhor);
E para darem a oferta segundo o disposto na lei do Senhor: Um par de rolas ou dois 
pombinhos.” 

Com relação a circuncisão no oitavo dia, citado por Lucas, encontramos a referência no Gen. 17:12, 21:4 e Lev. 12:3.

A frase “como fora chamado pelo Anjo, antes de ser concebido no ventre de sua mãe” é uma prova do renascimento. Ou seja: “antes” já existia, já tinha nome. Essa existência anterior pertence a todos nós, pois Jesus é apenas o nosso irmão mais velho, “o primogênito entre muitos irmãos” (Rom. 8:29)

Segundo Lev. 12:2-5 as mães deviam apresentar o primeiro filho do sexo masculino ao templo, 40 dias após o parto. Se o filho era primogênito (bekor) a mãe deveria levá-lo pessoalmente, apresentá-lo e consagrá-lo a Deus. (Ex. 13:2-12). Entretanto como os da tribo de Levi é que tinham função sacerdotal oficial (Num 3:12-13), os primogênitos de outras tribos eram “resgatados” com a oferta de cinco ciclos de prata (Num 18 15-16). Sendo Jesus da tribo de Judá, fez Maria a oferta legal por ele, isentando-o do sacrifício oficial.

Em vista disso Lucas não distingue as duas cerimônias: a purificação de Maria e a consagração de Jesus, mas engloba-as numa só palavra: o resgate deles.

Segundo a citação feita por Lucas do Ex.:13:2 e 12, onde se lê textualmente: “todo macho que abrir a vulva será chamado santo para o Senhor”, vê-se claramente que o nascimento de Jesus foi normal, não havendo virgindade física durante ou depois do parto como desejam alguns. Se os fatos tivessem sido anormais, Maria estaria dispensada da Lei.

Para sua purificação Maria ofereceu um sacrifício (Lev 12:8) de um casal de rolinhas ou de dois pombos jovens (borrachos) que se permitia aos pobres, para substituir o cordeiro, o qual não poderiam comprar.

Todos aqueles que realizaram as bodas místicas internas da natureza humana com a divina, põem-se a serviço de Deus e, portanto, devem circuncidar-se, ou cortar ao redor de si todos os apegos, para que tenham como se não tivessem; possuam sem ser possuídos; usem como por empréstimo; utilizem tudo como administradores dos talentos divinos, recordando-se de que “nada trouxemos para esse mundo, e sem dúvida, nada dele poderemos levar”. (ITim, 6:7).

Renúncia de coração para servir-se das coisas e com elas servir aos outros, com desapego a recompensas, a gratidão e a retribuições quaisquer. Esta é a “circuncisão interna” que todos devemos cultivar. Ela inclui o desapego até mesmo de ideias e concepções quanto aos laços sanguíneos, aos afetos e semelhantes, para que apenas o puro amor que o Divino verte de Si possa permanecer como manifestação natural. Este desapego (circuncisão) é inevitável quando, pelo encontro com o Eu superior, adentramos o Templo interno, contrastando a realidade divina interna com a transitoriedade material externa.

Mas esse desapego não é levado a termo enquanto não se faz a purificação da personalidade. E para isso devemos esperar 40 dias. (“quarenta dias” é simbólico - pode significar anos e até vidas). Para o candidato que já chegou ao encontro com o divino interno, a tarefa é mais fácil. Realmente o nascimento do primogênito (Bekor), consagrado a Deus requer o mergulho nas vidas anteriores conscientizando todas as experiências adquiridas desde o início da peregrinação evolutiva até a conquista da mente (passando pelos estados de consciência mineral, vegetal e animal). Corresponde à quinta iniciação menor e nos põe acima dos opostos de simpatia e antipatia; em suma, em ligação igual com todos os seres.

Uma vê purificados os veículos denso, etérico, de desejos e mental, apresentamo-nos ao Templo, ao Cristo Interno, como oferenda, submissão e consagração para o SERVIÇO. Esta cerimônia é simbolizada pela oferta de um cordeiro (ou de pombas como vimos no evangelho de Lucas). Isto demonstra que a graça do “encontro” pressupõe o sacrifício da parte animal, ou melhor da entrega da parte animal já purificada.

Daí em diante só o espírito prevalece,. Como disse São Paulo: “Não mais eu quem vive, mas o Cristo em mim”. O corpo se converte em alegre vivenda porque não representa mais uma prisão; e a vida passa a ser uma SEARA.

                                                  Publicado na revista Serviço Rosacruz, de  janeiro de  1976

2 de jun. de 2012

A Tentação no Deserto (parte II e III)

De novo o demônio atacou Cristo-Jesus, oferecendo-lhe o comando do mundo. Este terrível demônio tinha nesse tempo quase o supremo controle sobre a Terra e neste ponto poderia fazer Cristo-Jesus vacilar. Porque não entrar em acordo, como faz o homem comum diante do poder do mundo? Porque não aceitar o oferecimento, dominar a Terra e assim evitar os transtornos e sofrimentos que antevia em Sua missão? Seria muito mais fácil, tornar-se-ia um conquistador, um herói maravilhoso no conceito dos homens, até que viesse a inevitável reação e Ele descobrisse que "ganhou o mundo inteiro" e perdeu, não apenas Sua própria alma como a do mundo inteiro, que tinha confiança de salvar. Assim, de novo clamou pelo Cristo em Si, afirmando; "ADORARÁS AO SENHOR TEU DEUS E SÓ A ELE SERVIRÁS".


Havendo de novo falhado, tentou o demônio pela terceira vez induzir Jesus a enfrentar um grande perigo, desafiando-O a executar uma verdadeira loucura, argumentando que Cristo Jesus seria divinamente protegido, citando a sagrada escritura para apoiar completamente sua sugestão. Desta vez, Cristo Jesus virou-se para ele com todo o poder da verdade refutando a sugestão e declarando conclusivamente: “NÃO TENTARÀS O SENHOR TEU DEUS!, não que Ele se julgasse o próprio Deus, mas afirmando que o Cristo interior haveria de ser o Senhor de nosso reino, na destruição final do próprio demônio.

Lemos, depois, que o “demônio O deixou por certo tempo”. Reparem bem nesta frase: deixou-O por certo tempo, pois a prova foi-Lhe apresentada mais uma vez, como sucede a todo iniciado em seu caminho. De tempo em tempo, durante o ministério de Cristo-Jesus, vemo-Lo enfrentar provas idênticas, às vezes apresentadas pelos próprios discípulos, como quando disse a Pedro: “ Afasta-te de mim, Satanás”, pois Pedro exteriorizou seu entusiasmo desejando que Cristo tomasse o poder do mundo.

Também quando estava cansado e com fome, ao fim de um longo dia de viagem, Ele não respondeu à mulher samaritana que “explicaria essas coisas depois que descansasse e comesse”, senão que, no mesmo momento, prazerosamente, deu-lhe as explicações de que ela necessitava. No Domingo de Ramos, de novo a tentação ali estava a insinuar que Ele poderia tornar-se Rei. Como Rei, Ele poderia libertar o povo?

Diz a lenda, provavelmente verdadeira, que Judas, o pobre discípulo criticado e discutido, reuniu um exercito de no mínimo doze legiões, no deserto, e a provável recusa do Mestre de aceitar qualquer ajuda material causou-lhe um choque tão grande que o teria levado a forçar o Cristo aceitá-la. Por isso, tornou-se um instrumento do alto, perpetrando a maior traição da história. Fracassado o interno, tomou o rumo dos fracos, destruindo-se a si mesmo.

No Getsêmani, outra vez, quando como homem foi de novo tentado, enfrentando a maior provação de sua vida terrestre ao vislumbrar com toda intensidade os sofrimentos que O esperavam, Cristo expulsou totalmente o medo, proferindo”Não se FAÇA a MINHA VONTADE, Ó PAI senão a Vossa, isto é, dominou novamente a parte humana e deixou prevalecer a divina.

Diante de Pilatos, quando interpelado a demonstrar Seu poder por meio de um milagre (Que é a Verdade), Ele silenciou. E mesmo na cruz, mais uma vez Ele refutou as três formas de tentação. Era-Lhe muito importante conservar a plena e vigilante Sua consciência durante essa derradeira prova.

Evidentemente uma senda terrível, resultante da crucificação, nublou-Lhe a consciência, então, Ele pediu água, como qualquer pessoa sedenta o teria feito. Contudo, ofereceram-Lhe em lugar disso, a mistura de “vinagre e fel”,que era um poderoso narcótico, dado Às vezes ao crucificado devido ao modo brutal dos oficiais romanos. Isto Lhe diminuiria o sofrimento, mas, se assim fizesse, estaria anulando Sua própria finalidade. Recusou a mistura, apesar de ansiar alívio. Mais tarde, alguns espectadores escarnecedores desafiaram-No a descer da cruz, se realmente “fosse o Filho de Deus”. Ele o poderia ter feito facilmente, mas de novo à custa de Sua missão. Finalmente, quando proferiu o último e vitorioso brado, Ele não disse “Eu estou consumado”. Proferiu o impessoal “Consumatum est” – “está consumado”, recusando mais uma vez elevar a reputação de si mesmo, entregando inteiramente a honra e poder de Sua missão a Deus.

Traduzido e adaptado de: The Temptation in the Wilderness (de Jack L. Burtt) da "Rays From Rose Cross", Janeiro de 1963. Publicado no ECOS da Fraternidade Rosacruz – Sede Central do Brasil, Novembro de 1997. Mantida a ortografia da época.

Quem é Teófilo?


REF. Lucas cap. 1 - vers.1 a 5
1. Tendo muitos empreendido fazer uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram,
2. como no-las transmitiram os que foram deles testemunhas oculares desde o princípio e ministros da palavra,
3. também a mim — depois de haver investigado tudo cuidadosamente desde o começo pareceu-me bem, excelentíssimo Teófilo, dar-te por escrito uma narração em ordem,para que conheças a verdade das coisas em que foste instruído.

Os evangelhos não têm a intenção de meramente apresentar a biografia de Jesus Cristo. Esse é apenas o seu aspecto externo, as suas vestiduras. No sentido oculto, nas entrelinhas, há um caminho de regeneração, uma fórmula iniciática, para ser conscientizada e vivida interna e individualmente. Eis o sentido de: "A letra mata, mas o espírito vivifica", isto é, o sentido literal da mensagem acaba nos cristalizando, mas o espírito da letra, o sentido oculto, a mensagem das entrelinhas, lá está a desafiar-nos, para desdobramentos de consciência cada vez mais amplos. Os evangelhos são livros misteriosos, cheios de alegorias e chaves. Por isso é que o Mestre pregava por meio de parábolas "aos de fora" e depois explicava o sentido delas "aos que estavam na casa", aos discípulos. Assim fazia, para que, "ouvindo, não ouvissem", isto é, não apanhas sem o sentido mais profundo quando não estivessem preparados para digeri-lo. Ele sempre terminava suas prédicas, dizendo "quem tem ouvidos de ouvir, ouça; - quem tem olhos de ver, veja". 

Deste modo não corria o risco de "atirar as coisas santas aos cães" nem " jogar pérola aos porcos", ou seja, àqueles que ainda, como o filho pródigo, comem a comida dos porcos, as imundícias de uma vida material e impura, que desvirtuam as coisas sãs, que fariam mau uso de poderes internos. Lembremos que São Paulo recomendava dar "leite às criancinhas da doutrina (as almas débeis e enredadas em ilusões) e dar carne aos adultos (as almas fortes e mais livres, movidas por elevados propósitos e forte vontade).

O Cristianismo é profundo e atende aos mais variados graus de consciência. Ele será conhecido apenas na "Idade Aquária", daqui a uns 600 anos. O Cristianismo atual se apresenta, para a maioria, de forma mui rudimentar. Só uns poucos já o estão penetrando. Quando Nicodemos foi procurar o Cristo à noite, em busca de instrução, o Mestre lhe disse: "É-vos necessário nascer de novo, da água e do espírito", isto é, purificar-se (nascer da água) e iluminar-se (batismo de fogo do Espírito Santo, o pentecostes). São Paulo refere ao mesmo fato, quando diz: "despojai-vos do velho ser e revesti-vos do novo ser, em novidade de espírito".

Lucas não intentava apenas oferecer mais uma narração da vida de Jesus, mas apresentar uma fórmula diferente de Iniciação, ou de "um novo início, um novo nascimento". Embora o seu evangelho se assemelhe ao de Marcos e Mateus (por isso se chamam sinóticos, de "ópticos" — abarcados num só olhar; e "sin" = de conjunto), note-se que nele se dá realce à humildade, à ternura, à Maria: o nascimento na Manjedoura, a visita dos pastores, Maria recebendo as mensagens do Anjo, etc... em constraste com Mateus onde Jesus nasce em sua casa, recebe a visita de Reis Magos, suscita inveja a Herodes, José recebendo avisos, etc... Um é místico, mais feminino, outro é forte, masculino.

Lucas era grego, médico, de grande cultura, afeito à pesquisa. Seu nome é abreviatura grega do nome latino Lucianus (nascido da luz). Deve ter sido iniciado por São Paulo, a quem acompanhou na segunda e terceira excursões missionárias (At. 16:10-17; 20:5-21),fazendo-lhe também companhia nos cárceres de Cesaréia e de Roma. Não chegara a encontrar-se pessoalmente com Jesus. Em suas viagens com Paulo, deteve-se em Éfeso, onde Maria, a mãe de Jesus se encontrava, em companhia de João Evangelista — o discípulo amado. De Maria recebeu Lucas muitas informações, sofrendo de outra parte, influência de Paulo.

A expressão "desde o princípio" tem (segundo o advérbio grego) dois sentidos: "desde o começo" e "de novo", ambos cabíveis aqui.

Lucas se dirige a Teófilo. Dá a impressão de que se refere a alguma personagem ilustre, real e viva àquela época, por causa do título excelentíssimo. No entanto, a ex­pressão tem outro endereço. Teófilo significa "amigo de Deus". Excelentíssimo tem o mesmo sentido de quem diz: "este quadro está excelente". Portanto, Lucas se dirigia a todo cristão que, no seu tempo ou pelo futuro afora, fosse um "excelentíssimo Amigo de Deus", isto é, aquele que, no seu viver diário, prefere Deus a manon - o deus da cobiça. E não só isso é mui excelente Amigo de Deus, fiel em tudo, às suas leis. Em conclusão, é como se o Evangelista dissesse: "pareceu-me bem, ó mui excelente Amigo de Deus, dar-te por escrito uma narração em ordem, para que conheças a verdade das coisas em que foste instruído". É um claro convite a todo "excelente cristão" para penetrar as revelações profundas que ele esconde sobre alegorias, como a "pérola de grande valor" ou o 'tesouro escondido no terreno do corpo humano.
                                                                    Publicado na revista Serviço ROSACRUZ – Fev 1978