11 de ago. de 2021

Sobre as Diferentes Interpretações da Bíblia

Max Heindel 

Pergunta: Por que cada seita interpreta a Bíblia diferentemente e como cada uma consegue uma justificação aparente às suas ideias a respeito desse livro?

Resposta: Essa pergunta proporcionaria grande satisfação a um cético, porque seria uma justificativa para seu ponto de vista de que todas as seitas estão erradas em suas crenças e que a Bíblia é um aglomerado de absurdos. No entanto, o caso é bem diferente. Não sustentamos a divindade desse livro, nem somos da opinião que ele contém a Palavra de Deus da primeira à última página. Reconhecemos o fato de que é uma tradução pobre dos originais e que há muitas interpolações inseridas em épocas diferentes para sustentar diversas ideias. Contudo, ao possuir tanta verdade e um conhecimento concentrado em tão pequeno espaço, é uma fonte de admiração constante para o ocultista, que sabe o que este livro realmente representa e tem a chave do seu significado.

Há um fato que o cético não consegue perceber. Sua opinião é que se uma certa interpretação é considerada correta, todas as outras necessariamente são falsas. Essa ideia é errada. A verdade tem muitas facetas e é eterna. A busca da verdade deve ser abrangente e nunca termina. Podemos comparar a verdade a uma montanha, e as várias interpretações dessa verdade aos diferentes caminhos que conduzem ao topo.

Muitas pessoas estão seguindo esses caminhos, e cada uma delas pensa que o seu é o único que a levará ao cimo. Mas isso só no início, pois apenas enxergam pequena parte da montanha. Pode-se desculpá-las quando alertam os seus irmãos: ―Vocês estão errados, venham para o meu caminho; é o único que leva para cima". Mas à medida que essas pessoas avançam e se elevam, percebem que todos os caminhos convergem para o topo, reduzindo-se a um só no final.

Podemos dizer, mais enfaticamente, que, nenhum sistema de pensamento capaz de atrair e reter a atenção de um grande número de pessoas por um determinado tempo, não encerre alguma verdade.

Percebamo-lo ou não, há em cada seita a semente do ensinamento divino que conduz as pessoas, gradualmente, ao topo da montanha. Portanto, devemos ter a máxima tolerância em relação a cada crença.

Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas, vol I, perg.73

8 de ago. de 2021

A Cidade Quadrangular de Ezequiel e a Quadrangular Cidade Das Revelações

Ainda em épocas bem anteriores ao cristianismo, grandes ensina­mentos espirituais já eram entregues através de ritos iniciáticos. Grandes Templos foram erguidos com a finalidade de servirem de locais apropriados às diversas cerimônias onde eram conferidos, ritualisticamente, os graus iniciáticos. Nas margens do Nilo, ainda hoje, podemos encontrar ruínas maravilhosas, que anunciam uma época em que as iniciações se processavam no plano físico.

Com o surgimento da cristandade, foram incorporadas muitas destas fases iniciáticas aos seus ritos. Durante os primeiros três séculos da era cristã, a Igreja primitiva foi, verdadeiramente, a guardiã dos mistérios. Nos apócrifos originais dos Pais da Igreja, várias alusões são feitas com respeito aos ensinamentos ocultos, ou gnósticos. São Paulo por sua vez fala nesse sentido como: "CARNE PARA OS FORTES", e leite para os fracos e superficiais.

Na primeira Carta aos Coríntios 3:2, diz: "LEITE VOS DEI A BEBER, — NÃO VOS DEI ALIMENTO SÓLIDO; PORQUE AINDA NÃO PODERÍEIS SUPORTAR".

Tendo o mundo submergido, cada vez mais, no materialismo, estes ensinamentos místicos foram sendo esquecidos. Os Templos Iniciáticos, porém, preservam-se até os nossos dias nos planos internos.

Cada grande religião mundial tem o seu Templo, sendo por ele inspirada e dirigida em seu serviço. Em a nova interpretação da Bíblia multas vezes nos é indicado o lugar onde se encontra o Templo Místico de nossa época, quando cita a cidade de Jerusalém, isto "e, a Nova Jerusalém, constituída de éter.

Em a Nova "Época, os mais elevados ensinamentos esotéricos serão dados todos juntos, em uma única Iniciação. A Quadrangular Cidade de Ezequiel, e as citadas nas Revelações são descrições dos Templos do "Novo Dia", como também dos corpos cristíficados da nova raça pioneira que neles habitarão.

Ezequiel vê esta Cidade completamente perfeita, iluminada, num determinado país, formada de uma essência sublimada de fogo, ar, água e terra. Havia doze portões de entrada nessa Cidade; três em cada lado. Cada portão levava um nome correspondente ao de uma tribo de Israel, identificando-se, cada um, com os signos do Zodíaco.

Em conjunto, significam o novo corpo etérico feito de Luz, qualidade esta que nos habilitará para o nosso encontro com Cristo nas nuvens da Cidade Santa, para, juntos, reinarmos com Ele em Sua Glória.

As doze tribos indicam a força espiritual dos doze signos zodiacais que, incorporados no homem, representam as seis raças-raiz. Esotericamente são chamadas as doze Rosas na Cruz da Humanidade, desabrochadas naquele glorioso porvir. Em redor dessa Cidade, não haverá fortificações ou armamentos para guerras, pois, os pensamen­tos de antagonismos e lutas não existirão. Nesta Cidade habitarão iodas as tribos de Israel, isto é: a Humanidade em sua totalidade, renovada.

Com a abolição das guerras, a emancipação dos povos será um fato, fazendo que uma nova e unida Humanidade tome lugar no meio evoluinte. Uma maior explicação a respeito da raça que habitará a "Nova Terra" encontramos no capítulo 12 das Revelações, o Apocalipse. A Nova Cidade, tal como o corpo humano, será quadrangular, isto é, construída da essência sublimada dos quatro elementos. Esta Cidade, na alegoria bíblica, tem quatro portões, guardados por doze Anjos, que representam os doze centros espirituais despertos que transformam a pedra bruta, o cubo, o corpo denso, em cubo perfeito da Cidade Quaternária, espiritualizado. Nos portões acham-se escritos os doze nomes das tribos de Israel, símbolo do elevado impulso das doze Hierarquias criadoras, que na hora do despertar dos doze centros já citados, será atraído pelo candidato. Os doze fundamentos dessa Cidade têm os nomes dos doze apóstolos de Cristo; doze atributos ou forças, simbolizando o Homem-Liberto. Mostram-nos, também, a nova concepção da consciência racial, força cristã apostólica evoluinte, aguardada por toda humani­dade.

Extraído e traduzido de: "Das Rosenkreutz" por F.Ph. Preuss.

12 de jun. de 2021

A Bíblia é a "Palavra de Deus?"

por Max Heindel

Pergunta: Os Rosacruzes aceitam a Bíblia como sendo a “Palavra de Deus” da primeira à última página?

Resposta: Não, e menos ainda no que diz respeito à interpretação extremamente limitada de algumas pessoas que supõem que o livro, tal como o conhecemos hoje, é o único genuíno já oferecido à humanidade. Quando muito, poderia ser apenas um dos livros de Deus, pois há muitas outras escrituras sagradas que devem ser reconhecidas e não podem ser consideradas improcedentes por uns poucos pretensiosos, como aqueles que delegaram os chamados livros apócrifos à pilha de refugos literários.

Devemos lembrar que o Antigo Testamento foi escrito em hebraico, em épocas diferentes e por numerosos escritores, e esses textos não foram colecionados antes de Ezra. Desses escritos hebraicos, não temos hoje nenhum fragmento existente. Por volta de 280 A.C., a língua hebraica deixou de ser usada em relação às escrituras. A Versão do Septuaginta ou Versão Grega, é que entrou em uso e era a única Bíblia existente na época do nascimento de Cristo. Mais tarde, alguns dos escritos hebraicos foram encontrados e examinados pelos Massoréticos, uma seita que existiu cerca de 700 anos D.C. Este é o melhor e o mais acurado texto.

A tradução inglesa, mais usada hoje em dia, é a Versão do Rei James. Porém, Sua Majestade preocupava-se mais com a paz do que com a verdade, e a lei que autorizou a tradução da Bíblia proibia aos tradutores quaisquer passagens que pudessem interferir nas crenças existentes. Isto foi feito para evitar qualquer dissidência em seu reino. Dos quarenta e sete tradutores, apenas três eram versados na língua hebraica, e dois morreram antes da tradução dos Salmos. Vários livros foram rejeitados por serem considerados apócrifos e tiveram as palavras alteradas, pois o seu significado original não se ajustava à superstição da época. Martinho Lutero, na Alemanha, fez a tradução baseado no texto latino, que já havia sido traduzido do grego. Portanto, o risco de erros devido às excessivas e discutíveis traduções tornou-se muito grande. Além disso, na antiga escrita hebraica, os pontos representando as vogais foram suprimidos e não separavam-se as palavras, de forma que, ao inserir vogais em ordem diferente, obtemos palavras e frases de significados inteiramente diversos. Isso se aplica a qualquer frase. Em vista desses fatos, podemos concluir que as chances de obter uma versão precisa da escrita original são, realmente, bem pequenas.

Ainda mais, os escritores originais não tiveram a intenção de fazer da Bíblia um ―Livro de Deus‖ para todos, como pode ser constatado pela seguinte citação do Zohar: ―Infeliz do homem que vê na Torá (a lei — a Bíblia) apenas simples narrações e palavras comuns, porque se na verdade ela só contivesse isso, seríamos capazes hoje de compor uma Torá ainda mais digna de admiração. Mas não é assim; cada palavra na Torá contém um significado elevado e um mistério sublime... As narrações da Torá são as vestimentas da Tora... Infeliz daquele que confunde esta vestimenta da Torá com a Torá em si... Os ingênuos percebem apenas as vestimentas e narrações da Torá; não tomam conhecimento de outra coisa, não enxergam o que está oculto sob a vestimenta; os mais instruídos não se detém na vestimenta mas naquilo que ela encobre"...

Em outras palavras, não devemos prestar atenção à forma, mas apenas ao conteúdo. Num terreno onde batatas foram plantadas, não há apenas esses tubérculos, mas também o solo no qual estão ocultos.

Também na Bíblia, as pérolas da verdade oculta estão envoltas no que, frequentemente, parecem ser vestes horríveis. O ocultista que se preparou para possuir essas pérolas recebeu a chave e as vê plenamente. Para outros, elas permanecem obscuras até que também tenham trabalhado por essa chave.

Por conseguinte, enquanto o curso errante dos filhos de Israel e as negociações de um certo Deus com eles são parcialmente verdadeiras, ali há também um significado espiritual que é bem mais importante do que a história material. Embora o Evangelho contenha as linhas gerais da vida de um indivíduo chamado Jesus, essas são fórmulas de iniciação mostrando as experiências que cada um deve eventualmente atravessar no caminho rumo à verdade e à vida.

Esse caminho foi prognosticado pelas várias pessoas que escreveram a Bíblia, isto é, pelos profetas e videntes, mas apenas na possibilidade do seu tempo e período. Uma nova era exigirá uma nova Bíblia, uma nova palavra.

Do livro Filosofia Rosacruz em Perguntas e respostas Vol.I perg. 78

1 de abr. de 2021

O Lavatório dos Pés ou o "lava-pés"

Ref.: João 13 (12-15)

O lavatório dos pés ou o “lava-pés”, cujo simbolismo é profundo e de suma transcendência, é considerado pela grande maioria como um ensino puramente moral de humildade e abnegação.

Em João nós lemos:

Depois que lhes lavou os pés, e tomou as suas vestes, e se assentou outra vez à mesa, disse-lhes: Entendeis o que vos tenho feito? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. ” (João 13:12-15)

Os Rosacruzes relacionam esta passagem (que como sabemos, é uma das etapas que teremos que vencer para chegarmos à iniciação), com o contínuo movimento de cooperação e retribuição entre os diversos reinos da Natureza. É uma alusão a que a Lei do Superior é o produto do Inferior. O que está mais alto na escala da evolução necessita do que está mais abaixo em uma escala descendente, porque, se não existissem as sucessivas escalas, apoiando-se uma nas outras, o superior não teria onde firmar-se.

O Cristo, o enviado de Deus, não poderia ser tal sem os apóstolos, os quais deram “bases” para seus ensinos e, por meio deles pode manifestar-se logo em toda Sua glória e poder.

Assim sendo, o aspirante rosacruz tem o conhecimento da necessidade da prática dessa lei da natureza, que não lhe pede apenas humildade, mas reverência e colaboração consciente no serviço para com todas as ondas evolutivas.

De: Os Segredos do Cristianismo, revista Serviço Rosacruz, agosto de 1972
Imagem: Do álbum de fotos do irmão Antonio Rueda.

Mais sobre o "Lava-pés" : veja O Lavapés místico de cada um de nós:

22 de nov. de 2020

Metamorfose

Visão de São João Evangelista da Jerusalém Celestial, Tapeçaria, Castelo de Angers , França

A tendência natural evolutiva é, DE DENTRO PARA FORA, DE BAIXO PARA CIMA, SEMPRE, e por isso a Filosofia Rosacruz — a escola de mistérios ocidentais, leva o estudante a redescobrir-se, a conhecer-se e, tomando conhecimento de seu relativo estado de consciência, empreenda a tarefa de reeducação, de transmutação e libertação das sujeições da matéria.

Tomando o axioma hermético: "ASSIM COMO É EM CIMA É EM BAIXO", podemos apu­rar a veracidade do que dissemos. A analogia é a chave de maiores recursos e se consideramos ser o homem um microcosmo, parte do macrocosmo que é Terra, e como ambos seguem linhas idênticas, numa perfeita reflexão evolutiva, veremos quão profunda é nossa Filosofia e como ela concilia magistralmente a ciência, a religião e a arte.

Os lemurianos viviam muito próximo do ígneo centro da Terra. Os atlantes habitaram nos vales profundos, já afastados do centro do planeta. Os arianos foram impelidos, pelos dilúvios, para as mesetas, os planaltos, onde hoje vivem. Analogamente, seguindo a mesma direção, os homens da nova idade habitarão no ar, porém, como sabemos que os nossos corpos densos, como massa, estão sujeitos à lei de gravidade que os atrai para o centro da Terra, uma transformação deverá necessariamente ocorrer. Paulo disse-nos que a carne e o sangue não podem herdar o reino dos céus. Mas diz também que temos um somma psuchicon, mal traduzido por corpo natural e que significa realmente um corpo espiritual, constituído pelos dois éteres superiores, mais ligeiros do que o ar e, por isso, capaz de levitação. Este corpo é o áureo "traje de bodas" (os Ensinamentos de Max Heindel o chamam Corpo Alma) a pedra filosofal ou pedra viva que algumas filosofias antigas designam por diamante da alma, por ser luminoso, refulgente e cintilante como aquela inestimável Joia. Veja mais sobre oCorpo Alma aqui

Essa metamorfose toda e sair para o alto e para fora pode comparar-se à transformação do girino em rã (trânsito da humanidade desde o continente atlântico até à irisada idade ariana) e da lagarta que se arrasta pela terra, na mariposa que fende os ares (símil do futuro trânsito do nosso presente estado e condição para os da Nova Galileia, onde ficará estabelecido o reino de Cristo).

Sobre isto, Cristo manifestou implicitamente que o novo céu e a nova terra não estavam preparados, quando disse aos discípulos: "Para onde eu vou não podeis vós ir agora, porém, hei de aparelhar-vos lugar e virei outra vez e vos tomarei comigo para que, onde eu esteja, estejais vós também". Posteriormente, em visão, o apóstolo João viu a Nova Jerusalém que descia do céu e Paulo escreveu aos Tessalonicenses dizendo-lhes, por palavras do Senhor, que, os que vivam em Cristo, serão arrebatados nas nuvens, na segunda vinda, para receber o Senhor no ar e estarão para sempre com Ele. Isto tudo concorda com as tendências expressas na passada evolução da humanidade.

12 de jul. de 2020

O Outro Discípulo

R. T. Oakley. Rays from the Rose Cross – tradução de Marcos Korol

Conhecemos a história da escolha dos doze discípulos por Cristo, mas o conto de um desses escolhido, quem a princípio não veio, mas quem finalmente respondeu ao chamado não é escrito em papel nem pergaminho, não é achado nas histórias do mundo, nem retratado nos evangelhos, ainda que o registro exista nos reinos mais altos, e agora está sendo colocado perante você. Se traz conforto e refresca o cansado, se cura uma ferida, ou se fortalece o fraco, então nós somos amplamente recompensados pelo tempo e trabalho que tomou trazê-la de sua obscuridade. Este relato veio no “Frescor da Manhã”, enquanto naquele vale maravilhoso de São Fernando, o Vale dos Jardins, em um acampamento embaixo das árvores de pimenta, com o céu no leste assumindo a cor de uma rosa vermelha brilhante, sombreado ao sul com um magenta leve, e finalmente sombreado num tom de lilás, enquanto ao nordeste surgem os sopés das Montanhas banhados num lindo e etéreo azul, com seus contornos distintos tornando-se nítidos contra um fundo de açafrão amarelo-laranja, que conforme mudam para um sombreado mais leve, anunciam a chegada da magnífica Estrela do Dia em toda sua glória.

O MEIO-DIA
Nos dias de Tibérius César, quando Poncius Pilatus era governador da Judéia, e Herodes tetrarca da Galiléia, a fama de João, o filho de Zacharias, o rabino, estendia-se da costa à Jordânia, do Mar da Galiléia ao Mar Morto, e das cortes de Herodes a Jerusalém. A ele vinha a multidão dizendo: “És tu o Cristo? ” e sua resposta era: “Eu não sou Ele, porque eu vos batizo com água, mas Ele há de vos batizar com fogo.” Isto levou vários embora, alguns em decepção, outros em zombaria.

A notícia dos ensinamentos de João chegou ao pequeno povoado de Nazaré, nas colinas da Galiléia, de onde veio Jesus, o filho de Maria e de José, o carpinteiro, em busca de João, seu parente, e ali no pequeno povoado de Betânia a oeste do rio Jordão, perto do córrego de Kedron ele achou-o batizando a muitos. Entre os presentes estava Matias que procurou a Jesus e o indagou dizendo: “O que deve-se fazer para ser salvo? ”, e a resposta foi; “Deixe tudo e me sigas. ” Matias respondeu: “Minhas terras e riqueza eu alegremente deixaria por Ti, mas eu tenho a promessa de tomar como noiva a mais doce donzela de toda a Judéia, e você conhece a grande lei de que o primeiro dever é de povoar a Terra para que a semente de Abraão se espalhe como as areias do mar. Portanto qual mandamento devo seguir? Seguramente Tu não gostarias de me ver quebrando meu juramento perante Miriam e a lei. ” A resposta, “Se tu desejares ser meu discípulo, deves escolher entre mim e teu terreno amor”, levou o rapaz a prostrar-se enquanto ele ainda defendia sua causa: “Perdoa-me, Rabino, mas seguramente seu amor foi dado a mim por Deus com algum grande propósito, e sendo assim então como posso negligenciá-lo para seguir a Ti, pois esta é a coisa mais doce e pura na terra. E o que são todo o ensinamento, conhecimento e sabedoria comparados ao amor? Eu não posso abandoná-la”. O tom macio, doce e compassivo de sua voz em resposta a esta última questão encheu toda a atmosfera ao seu redor com uma mística doçura: “Vá a teu terreno amor, para tua flor que está para florescer, e mais tarde tu saberás e entenderás o AMOR MAIOR, um amor que não é medido por padrões terrenos, pois este é o presente d’Aquele que era antes de tudo”.

Este é o relato daquele que foi escolhido, mas que não atendeu a princípio, pois nós vemo-lo tomar a estrada a Arimathea, deixando Cristo Jesus em Betânia, só e triste.

O país que se aproxima de Arimathea pelo Sudeste tem bosques extensos de oliva e figueiras, vinhas também numerosas bem regadas por nascentes de águas claras e frias, e é aqui que encontramos o lar de Matias, o “outro discípulo”. A festa do casamento está em seu ponto alto, com uma grande assembléia de convidados e um generoso banquete. A alegria e felicidade estão em toda parte, pois este é um casamento verdadeiro e não meramente um dar-se em casamento. Miriam, a noiva, uma pura donzela judia, tem a graça de um lírio em forma, o creme da rosa em cor, a beleza do jacinto azul em seus olhos e a doçura da violeta no seu coração. A testa alta, o nariz proeminente, os olhos cinza claros, e os lábios sensíveis e delgados do noivo proclamam-no imediatamente ser um sábio e aluno da verdade, um investigador da luz. Verdadeiramente ambos bem-favorecidos por Deus, e quando ele dá uma olhada nela, sente que seu desejo está realizado, seu fim alcançado, ainda que tão pouco ele compreenda que este seja o último acontecimento da vida velha e o precursor de uma nova, o ponto de transição, o emergir de uma classe em outra.

 Certamente Miriam é rainha de rainhas; o seu coração está pleno, ele está satisfeito com sua escolha, mas ainda assim, o que é este sentimento estranho? Ele deve estar só, e então procura a solidão dos jardins com suas fontes de borrifo prateado enquanto a lua derrama os raios refletidos do sol sobre eles de cima. Aqui ele luta corpo a corpo com este “algo” que vem de fora da calma da noite para atormentá-lo em sua hora de alegria. O que é este sentido de algo ausente, algo evasivo, aquele marte em sua felicidade perfeita, um ansiar por algo desconhecido, que ele teve uma vez mas perdeu? Enquanto tenta resolver este novo problema que veio a ele, vê Miriam observar seu novo senhor e mestre. A donzela repentinamente tornou-se uma mulher lutando para si própria, como ela intuitivamente sabe que aquele “algo” maior do que ela entrou em sua vida, e então vai a ele, suplicar para que lhe diga o que surgiu em seu coração que tende a estragar a felicidade perfeita entre eles. Então ele conta a ela sobre seu encontro e palavras com o Cristo.

Somente aqueles que experimentaram estas coisas, aqueles que sofreram, podem entender o barulho da tempestade se aproximando no coração da jovem noiva. A serpente do ciúme entra neste Jardim de Éden lançando a sua língua relampejante com seu veneno e fúria. Podemos em certa medida, imaginar o conflito causado, mas seu Anjo da Guarda está com ela, e nós vemos a serpente saindo fora, dominada, quando entra em contato com a luz radiante de amor nos olhos de seu marido. Então seu semblante torna-se iluminado com o brilho de um amor respondido. A pureza dos olhos azuis brilha adiante de seus olhos enquanto ela também deseja conhecer este grande Profeta, e esta é a maneira pela qual Miriam ganha sua primeira vitória em sua nova vida.

Vemo-los se apresentar como homem e esposa em harmonia e amor no Monte, ouvindo com êxtase às lindas verdades ensinadas pelo Salvador da Humanidade, pois Ele ensina como alguém que tem autoridade. Testemunhamos com eles a cura do leproso, e a do servo do centurião, e o assombro de Miriam, quando o cego vê e o aleijado caminha. Verdadeiramente este deve ser o Messias. Mas aí vem uma ocasião quando Miriam fica cansada, e eles retornam para casa para descansar, às refrescantes colinas onde a paz e a fartura são abundantes.

A NOITE
 Assim que chegaram em casa, Miriam tornou-se doente com uma forte febre, e os médicos não conseguindo dar alívio, o “outro discípulo” com sua ansiedade aumentando, parte em busca do Curador Divino. Encontra os discípulos em Cafarnaum, mas perde a fé neles quando testemunha o seu fracasso em curar, e o Mestre encontra-se só nas Montanhas. Quanto sofrimento, agonia, e tortura ele sofre ao pensar em sua amada sem ajuda. Por quê o Mestre se foi? Por quê Ele demora? Onde Deus está que permite estas coisas acontecerem? E então quanto êxtase e conforto vêm em seu rosto, quanta gratidão, quando vê o Profeta de Nazareth se aproximar. Agora tudo estará bem, Miriam será poupada, tão grande é a sua fé. Descontroladamente ele se dirige ao Mestre, prostrando-se a seus pés que pleiteando como se estive à beira de um colapso: “Senhor, perdoa meus pecados, salve Mirian, mas me não poupe. Eu te recompensarei, mas eu não posso suportar em vê-la deste jeito”. “Levanta-te, amigo, e sejas forte no Senhor, pois nosso Pai que está no Céu tem necessidade dela, e de ela está agora em viagem a um lugar melhor. Regozijes e não chores, pois, Seus meios são sempre o melhor caminho”. Enquanto O Salvador proferia estas palavras, uma enorme compaixão e amor estiveram com eles, quão bem Ele entendeu esta pequena criança diante Dele! Com a mais suave das ações Ele levantou o homem caído a seus pés.

“O seu Pai e o meu Pai tem um outro trabalho para você fazer, pois aquele amor que era inicialmente focalizado em uma pessoa agora deve ser dado ao mundo faminto, tornar-se universal para você espalhá-lo ao mundo, expandí-lo para incluir todas as pessoas, para levantar o caído, fortalecer o fraco, confortar o sofredor e curar o doente. É o único poder ou força que pode fazer estas coisas. Portanto, filho, agradeça ao Pai por dar a você este privilégio especial, e siga teu caminho em regozijo”.

Novamente nós vemos o “outro discípulo” seguindo o caminho de Arimathea ao sudeste. Enterrou sua amada, e do fundo de sua tristeza e mágoa, sua solidão e vazio, nasce um novo amor. Do útero do problema nasceu a Criança de Luz, porque ele passou a se dedicar ao “serviço ao próximo”.

A seguir nós o vemos cruzando o deserto até que ele chegar ao forte de Macharus, onde o Batista é prisioneiro de Herodes. Após uma entrevista com seu velho Professor nós o vemos nos ricos jardins e pomares secretos do tetrarca da Galiléia, na Montanha do Pequeno Paraíso, o lar de prazeres de Herodes, onde os nobres da corte de Roma com os Sumos Sacerdotes e seus filhos em segredo na noite. Agora ele está diante de Herodes, o Rei dos Judeus, que se reclina em seu sofá de marfim. Os efeitos dos seus últimos pecados são claramente estampados sobre ele, pois seu cabelo e barba são tingidos, a sua carne é repugnante, e em contraste direto com o ambiente, há uma grinalda de rosas murchas e moribundas sobre a sua cabeça, pois o puro não pode coexistir com o vil. Mas os olhos são ainda flamejantes e ele ainda tem a astúcia de uma raposa. Ante este espetáculo repulsivo o “outro discípulo” pleiteia sua causa. “Oh grande rei e regente da Galiléia, todas minhas terras e posses perto de Arimathea, eu te darei se tu deres em retorno a liberdade daquele que é chamado o Batista, que não deseja nenhum reino em teu país, que não fez nada de errado que seja digno de encarceramento, e só deseja ensinar o povo a viver melhor”. Herodes estava prestes a responder quando Herodias cochichou-lhe e este então com um sorriso doentio pede ao “outro discípulo” que voltasse no outro dia que ele então o ouviria melhor sobre esta questão, mas que agora estava ocupado com outro negócio. Durante toda a noite, Herodias permanece acordada, planejando que o Batista não deveria escapar, e assim no dia seguinte, quando Herodes concedeu a sua filha Salomé qualquer petição que ela pudesse fazer, a cabeça de João foi exigida, e Herodes submeteu com a petição. O discípulo não tinha conseguido salvar seu Professor.

Logo vemos “outro discípulo” indo procurar a hospitalidade dos moradores do deserto, pois isto o levou de volta ao lar daquela a quem ele tinha amado; mas agora nenhuma tristeza ou dor está ali, só a lembrança daquele puro amor terreno.
No curral com os pastores nós o vemos partilhando sua humilde refeição e escutando a seus contos de atrocidades praticados pelos soldados de Herodes.


Vemo-lo viajar ao longo do vale da Jordânia, em direção às colinas da Judéia e Galiléia e às montanhas de Moab e Gileade. Assim que ele vê o córrego, com os capinzais da Jordânia ao longo de seus bancos com doze a quinze pés de altura, suas plumas imensas que se deitam sob rajadas de vento e que mostram sua beleza após a passagem do vento, podemos entender como ele ama esta região, pois este foi o lar escolhido pelo seu primeiro Professor, aquele a quem ele não tinha conseguido salvar. Aqui estava ele, onde tinha aprendido as primeiras grandes verdades da vida. Quantas memórias maravilhosas misturadas com tristeza vêm a ele!

Agora ele chega ao “amha-arets,” povo da terra, os fazendeiros e camponeses, e mais tarde nós o vemos entre as plantações de azeitona, sendo que a azeitona é o produto principal da Palestina; é a manteiga e a carne do povo humilde. As oliveiras dão a beleza à terra com sua folhagem verde, que tem um brilho prateado no lado de baixo e flores minúsculas de prata cobrindo a Árvore inteira.

Finalmente alcança o Mar da Galiléia. Deve-se ir aí para realmente apreciar a beleza deste mar de Tiberias, cercado por montanhas e sujeito a repentinas tempestades. Chegando enfim ao seu destino ao norte, onde o rio Jordão o recebe com suas águas frescas e frias, ele encontra o Filho do Homem, e torna-se uma testemunha ocular de Seus feitos.

O AMANHECER
Ele está presente na alimentação dos cinco mil e na cura do lunático. É ele que proporciona o jumentinho, para o transporte do Mestre. Com que alegria e entendimento ele escuta à parábola da peça “Vestido de Bodas”. Nós o vemos ocupado preparando o cenáculo para a Santa Ceia, e mais tarde ele está com todos no Monte das Oliveiras. Está ombro a ombro com Nicodemus em sua luta por Jesus de Nazareth perante o Sinédrio, a Corte Suprema, com os Sacerdotes e Anciões, e mais tarde alista-se em ajuda à esposa de Pilatus, em favor de seu Senhor, mas em vão, pois a Lei deve ser cumprida.

Após a crucificação ele cuidou do corpo de Jesus com José de Arimatéia, seu parente, como fez com o corpo de João, e está presente com Cleopas quando Cristo aparece a eles na estrada a Emmaus. Achamo-lo enumerando-se com os poucos que permaneceram fiéis, e então, quando a escolha do apóstolo a tomar o lugar de Judas ocorreu, pela primeira vez nós o ouvimos. Era ele quem fora novamente escolhido pelo Senhor, pois a maioria o havia indicado, e desta vez o escolhido aceitou o chamado. O Amor terreno que tinha sido sua pedra de tropeço havia se transmutado em um amor universal, e O CHAMADO FOI RESPONDIDO. O discípulo havia encontrado o caminho de volta ao lar de seu Pai.




3 de ago. de 2019

“Ficais alegres, porque vossos nomes estão escritos nos céus”

por Jonas Taucci

Uma amiga solicitou-me informações sobre os anacoretas: iria elaborar um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso, aqui no Brasil; uma dissertação a nível universitário, ao final de um determinado curso acadêmico).

Aproximadamente 18 séculos depois de seu início pelos desertos do Egito, e depois expandindo-se pela Síria, Pérsia, Capadócia, Armênia e Palestina, uma movimentação (solitária) de pessoas, intriga, assusta e causa perplexidade até nossos presentes dias.

Cristãos, residentes no Egito do século IV DC (aproximadamente no ano 330), abandonaram seus lares, posses, cargos etc. para irem residir no deserto. Moravam solitariamente em cavernas, ou casebres construídos de pedras e folhas, alimentando-se de pão, raízes, e frutas secas doadas por algum transeunte de caravanas. Seus contatos com outras pessoas eram mínimos.

Dedicavam-se a orações, penitencias, jejuns e a escritos litúrgicos: suas roupas logo esfarrapavam-se, e nus, permaneciam nestas condições por décadas.
Esperavam – com este comportamento – aproximarem-se da divindade, de Cristo, de Deus.

O anacoreta cristão fugia, para o deserto, da comunidade temporal a que pertencia na sociedade, para juntar-se – segundo eles – à comunidade espiritual, invisível, que reunia todos os cristãos de séculos anteriores.

E assim, este comportamento que rompia com a sociedade, culminou – com o passar do tempo – em uma nova sociedade nos desertos das localidades acima citadas. Como anacoretas, sabemos da existência de: Antão, Pacômio, Doroteu, Macário, Zózimo, Eusébio, João Clímaco, Alípio, Evrágio Pôntiaco, Gerásimo, Múcio e outros milhares...

Abaixo, certas características suas:

*** Residiam – propositalmente – em lugares distantes cerca de 10 km. de um rio ou fonte, para forçarem uma penitência de ir e vir buscar água. Muitas vezes, carregavam na ida e volta, pedras para dificultar esta atividade.

*** Apesar da vista no deserto, de uma noite com céu maravilhosamente estrelado, ficavam décadas sem contemplar esta cena, por “acharem-se indignos de ver as maravilhas que Deus construiu”. Jamais levantavam seus olhares.

*** Alguns anacoretas, subiam em árvores, e entre os galhos, viviam por décadas, sendo alimentados por visitantes, esporadicamente.

*** Outros, empilhavam pedras, de modo a alcançar uma altura de cerca de 15 metros de altura. Depois subiam ao topo, ficando lá – em oração – por anos a fio.

*** Em troncos de árvores de porte, esculpiam um buraco, fixando residência aí, pelo resto de suas vidas.

Há muitas outras características existenciais dos anacoretas; demandaria um espaço enorme para sua citação, mas penso ser o resumo acima, uma ideia bem aproximada do que foi este movimento.

 (Ele ainda existe, em escala menor, em desertos do oriente).

Há quem conteste – através dos séculos – esta postura isolacionista dos anacoretas.

Os Ensinamentos da Sabedoria Ocidental está entre os que não indicam um estilo de vida desta maneira, onde não há contato algum (ou mínimo) com outras pessoas.

Evoluímos – determinantemente – nos relacionamentos com nossos semelhantes, e jamais através de livros, cursos, textos, palestras, e principalmente isolando-se do mundo e das pessoas. Estas, são a mola propulsora de nossos avanços espirituais.


Em meu parecer – respeitosamente – houve nuances egoístas no retirar-se para os desertos, por parte dos anacoretas: deixaram para trás, semelhantes enfermos e desassistidos; focaram-se apenas em sua salvação (a contramão do desenvolvimento espiritual).

Em uma lição mensal de Filosofia (aos estudantes) de Oceanside, Sede Mundial, início dos anos 60, o tema referia-se a exatamente isto: NÃO HÁ COMO CONSEGUIR UMA ABRANGÊNCIA DE LUZ INTERNA, ABANDONANDO NOSSOS SEMELHANTES, DEIXANDO DE PRATICAR O SERVIÇO.  A lição do amor, pregada por Cristo, o maior iniciado do Período Solar, jamais deve ser esquecida, nem eclipsada por conhecimento (muitas vezes canto das sereias).

Esta lição de Oceanside, terminava enfatizando nossas posturas de amor e caridade para com os outros, resultando num “LIVRO DA VIDA” (Apocalipse de João, 21:27) e chancelada por Cristo:


 Ainda que residindo urbanamente, vivemos um estilo de vida anacoreta?