18 de nov de 2018

O Evangelho de São João e a Ressurreição de Lázaro


O Cristianismo desempenha um papel único, incisivo e capital na história da humanidade. É de certa forma, o ponto central de retorno entre a involução e a evolução. Dai que sua luz seja tão resplandecente

Em nenhuma parte se encontra esta luz tão viva como no Evangelho de São João. E, em verdade, pode dizer-se que é nele tão somente que aparece com toda sua força.No entanto, não é assim que a teologia contemporânea concebe este evangelho.

Do ponto de vista histórico ela a o considera como inferior aos três evangelhos sinóticos, e até há quem o suspeite de apócrifo. O mero fato de que sua redação tenha sido atribuída ao segundo século depois de Jesus Cristo, fez com que os teólogos e as escolas de crítica o considerassem uma obra de poesia mística e de filosofia alexandrina. Em compensação, o Ocultismo considera o Evangelho de São João de modo muito diferente.

Durante a Idade Média existiu uma série de fraternidades que viram no Evangelho de São João o seu ideal e a fonte principal da verdade cristã. Essas fraternidades chamavam-se, os Irmãos de São João, os Albigenses, os Cátaros, os Templários, os Rosacruzes. Todos eram ocultistas práticos e faziam deste Evangelho sua Bíblia. Pode admitir-se que as lendas do Santo Graal, de Parsifal e de Lohengrin tenham saído dessas fraternidades, como sendo a expressão das suas doutrinas secretas.
Todos esses irmãos de diversas Ordens consideravam-se os precursores de um cristianismo individual do qual possuíam o segredo e cujo pleno desenvolvimento e florescimento estavam reservados ao futuro. E este segredo só era encontrado no Evangelho de São João.

Encontravam ali uma verdade eterna, aplicável a todos os tempos, uma verdade que regenerava a Alma totalmente, desde que fosse vivida nas profundidades do próprio ser. Não se lia, então, o Evangelho de São João como se fosse um escrito literário, mas como servindo de instrumento místico. A fim de compreendermos aquela verdade eterna, teremos que nos abstrair momentaneamente do seu valor histórico.
Os primeiros quatorze versículos deste Evangelho representavam para os Rosacruzes objeto de uma meditação quotidiana e de um exercício espiritual. Atribuia-se-lhes um poder mágico que realmente tem, para os ocultistas.

Eis aqui o efeito que produzem, pela repetição constante, sem se cansar: feita sempre à mesma hora todos os dias se obtém a visão de todos os acontecimentos que conta o Evangelho podendo ser vividos interiormente.

É assim que, para os Rosacruzes, a vida de Cristo significava o Cristo ressuscitando do fundo de cada Alma. Ademais, acreditavam naturalmente na existência real e histórica de Cristo, porque, conhecer o Cristo interior, significa reconhecer igualmente, o Cristo exterior.

Um espírito materialista poderia dizer atualmente: O fato de que os Rosacruzes tenham tido essas visões, prova porventura, a existência real de Cristo? A isso responderia o ocultista: - Se não existisse o olho para ver o Sol este não existiria, mas se não houvesse o Sol no céu, tão pouco poderia existir o olho para vê-lo, posto que foi o sol que construiu o olho no decurso dos tempos para que pudesse perceber a luz. Similarmente o Rosacruz diria: - o Evangelho de São João desperta os sentidos internos, porém, se não existisse um Cristo vivente, seria impossível fazê-lo viver dentro de si mesmo.

A Obra de Jesus Cristo não pode ser compreendida na sua imensidade profunda, a não ser estabelecendo as diferenças entre os antigos mistérios e o Mistério Cristão.
Os mistérios antigos celebravam-se em Templos-escolas. Os iniciados, pessoas que haviam despertados tinham aprendido, igualmente, a obrar sobre o seu corpo etérico e, portanto, eram "duas vezes nascidos" porque sabiam ver a verdade de dois modos: diretamente pelo sono e pela via astral, e indiretamente, pela visão sensível e lógica. A iniciação pela qual tinham que passar se chamava: Vida, Morte e Ressurreição. O discípulo passava três dias no túmulo, em um sarcófago, dentro do Templo; seu espírito ficava liberto do corpo, porém ao terceiro dia, respondendo à voz do Hierofante, seu espírito voltava para o corpo, retornando dos confins do Cosmos, donde conhecera a Vida Universal.

E assim, transformado, era "duas vezes nascido".

Os maiores autores gregos falaram com entusiasmo e sagrado respeito destes mistérios.

Platão chegara a afirmar que somente o Iniciado merecia o qualificativo de "homem". Mas, esta iniciação encontrou em Cristo, o seu verdadeiro coroamento.

O Cristo é a Iniciação condensada na vida suprassensível, assim como o gelo é água solidificada. O que se via nos mistérios antigos se realizava historicamente em Cristo, no mundo físico. A morte dos iniciados não era mais que uma morte parcial no Mundo Etérico. A morte de Cristo foi uma morte completa no Mundo Físico.
Pode considerar-se a ressurreição de Lázaro como um momento de transição com um passo da iniciação antiga para a iniciação Cristã.

No Evangelho de São João, o próprio João só aparece depois de se mencionar a morte de Lázaro.

"O discípulo que Jesus amava", era, também, o maior dentre todos os iniciados. Foi aquele que passou pela morte e a ressurreição, e que ressuscitou ante a voz do Cristo mesmo.

João  é o Lázaro "saído" do túmulo depois de sua iniciação. São João vivera a morte de Cristo. Tal é a mística via que se oculta nas profundidades do Cristianismo.

As Bodas de Canaã, cuja descrição se lê igualmente neste Evangelho, encerram um dos mais profundos mistérios da história espiritual da humanidade. Referem-se às seguintes palavras de Hermes: "O que está acima é igual ao que está abaixo". Nas Bodas de Canaã, a água se transformava em vinho. A este fato dá-se um sentido simbólico e universal que é o seguinte: no culto religioso, o sacrifício da água era substituído por algum tempo, pelo sacrifício do vinho.

Houve um tempo, na história da humanidade, em que não se conhecia o vinho. Só nos tempos "védicos”, conheciam-no. Pois bem, enquanto o homem não bebera líquido alcoólico, a ideia das existências precedentes e da pluralidade das vidas, era uma crença universal, da qual ninguém duvidava.

Desde que a humanidade começou a beber vinho, a Idea da reencarnação foi-se obscurecendo rapidamente, acabando por desaparecer de todo da consciência popular. E tão somente os iniciados conservaram-na, porque se abstinham de beber vinho.

O álcool exerce sobre o organismo uma ação particular, especialmente sobre o Corpo Etérico, onde se elabora a memória. O álcool veda esta memória obscurecendo-a em suas profundidades íntimas. O vinho faz procurar o esquecimento segundo se diz, porém, não é somente um esquecimento superficial e momentâneo, senão um esquecimento profundo, duradouro; um obscurecimento verdadeiro da força da memória no corpo etérico. Poe este motivo, quando os homens começaram a beber vinho, foram perdendo, pouco a pouco, o sentimento espontâneo da reencarnação ou renascimento.

A crença no renascimento e na lei do carma, tinha uma influência poderosa, não só sobre os indivíduos como sobre o seu sentimento social. Esta crença fazia-lhes aceitar a desigualdade das condições humanas e sociais. Quando o infeliz obreiro trabalhava   nas Pirâmides do Egito, quando o hindu da última casta esculpia os templos gigantescos no coração das montanhas,dizia-se que outra existência o recompensaria pelo trabalho suportado. Que seu amo já havia passado por provas similares, se era bom, ou que passaria mais tarde por outras mais penosas, se era injusto e mau.

Ao aproximar-se o Cristianismo humanidade tinha que atravessar uma época de concentração sobre a obra terrestre. Era-lhe necessário trabalhar para o melhoramento da vida, pelo desenvolvimento do intelecto, do conhecimento racional e cientifico da Natureza. A consciência da reencarnação devia, pois, perder-se durante dois mil anos, e o que se empregou para obter tal objetivo foi o vinho.

Tal é a origem do culto de Baco, deus do vinho e da embriaguez, (forma popular do Dionísio dos Antigos Mistérios que, entretanto, possui outro sentido). Tal é, também, o sentido simbólico das Bodas de Canaã. A água servia para os antigos sacrifícios, e o vinho para os novos. As palavras de Cristo: "Felizes aqueles que não viram e que, entretanto, acreditaram", se aplicam à nova era em que o homem entregue por completo à sua obra terrestre, não tinha a lembrança das suas vidas anteriores, nem a visão direta do Mundo Divino.

O Cristo nos deixou um testamento na cena do Monte Tabor, na Transfiguração que teve lugar diante de Pedro, Tiago e João. Os discípulos viram-no entre Elias e Moisés. Elias representava o CAMINHO DA VERDADE; Moisés a VERDADE mesma, e o Cristo a VIDA que resume ambas. Por isto só ELE podia dizer: “EU SOU O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA’’”.

Assim, tudo se resume e se concentra, tudo se aclara e se intensifica, tudo se transfigura em Cristo. O Evangelho de São João remonta o passado da Alma Humana até sua mesma fonte e prevê seu futuro até sua confluência com Deus, porque o Cristianismo não é somente uma força do passado, mas também, uma força do futuro.

Com os Rosacruzes, o novo ocultismo ensina o Cristo Interior em cada homem, e o Cristo futuro em toda a Humanidade.
traduzido da revista Rays from the Rose Cross para 
revista Serviço Rosacruz de março de 1973

1 de out de 2018

"Porque Cristo Se Esconde Tanto?"

por Jonas Taucci
O título deste texto, foi uma pergunta realizada por um visitante ao Centro Rosacruz de Santo André, a muitas décadas.

Há que se saber qual a essência desta pergunta: encontrar Cristo fisicamente? Isto aconteceu a cerca de dois mil anos, com a humanidade da época, mas isto nunca se repetirá, pois ELE jamais se utilizará novamente de um corpo físico para manifesta-se na Terra.

O ponto de partida, para entendermos isto, reside (resumidamente) no fato de:

*** JESUS – Pertence à onda de vida humana.

*** CRISTO – O mais alto iniciado dos arcanjos. Utilizou os corpos denso e vital de Jesus, para trazer seu ministério à Terra.

Repetimos, Cristo jamais se utilizará novamente de um corpo denso para vir à Terra, o que torna este encontro (físico) com a humanidade, impossível. No evangelho de Mateus (capítulo 24 - versículo 23), ELE nos adverte:

-  Então, se alguém vos disser: Eis que o Cristo está aqui ou ali, não lhe deis crédito. Em I Tessalonicenses (capítulo 4 – versículo 17), nos é informado (e dado muita importância pelo fiel aspirante rosacruz), que encontraremos Cristo nos ares, e para alcançarmos esta situação, há um trabalho interno a ser desenvolvido por todos nós.

Os Ensinamentos da Sabedoria Ocidental nos informam que Cristo voltará no mesmo Corpo Vital utilizado da primeira vez, e Max Heindel, em Filosofia Rosacruz em P&R – volume II, perguntas 96 a 102 nos dá uma bela explicação sobre isso, sendo estes ensinamentos não encontrados em nenhuma outra fonte religiosa, espiritualista ou esotérica. Vale a pena serem lidas!

Aqui, um dado interessante: há uma infinidade de livros com respeito a cristais e suas propriedades. Não é objetivo deste texto este assunto, contudo no livro Cartas aos Estudantes # 32: O Corpo Vital de Jesus, o Sr. Heindel nos fala que:

Cristo não se esconde, aliás, com a aproximação da Idade Aquariana o éter Crístico estará cada vez mais acentuado entre as pessoas que o buscam internamente. A resposta mais adequada à pergunta formulada pelo visitante, está no final do Ritual Rosacruz de dezembro, com referência ao Natal:

*** “...quanto mais cedo nos convencermos que devemos dar nascimento ao Cristo Interno antes de podermos ver o Cristo exterior, mais depressa chegará o dia da nossa iluminação espiritual. Cada um de nós será, oportunamente, conduzido pela Estrela até ao Cristo, mas é necessário acentuar, que não seremos conduzidos a um Cristo exterior, mas ao Cristo que está no Interior”.   

Contudo, há sim – inequivocamente – uma forma de “escondermos (e bem...) nosso Cristo Interno:

*** Nos vestirmos da hipocrisia de (apenas) falarmos, ouvirmos, escrevermos e lermos sobre o Cristo, desprezando nossos semelhantes, numa total embriagues esotérica; isto eclipsa totalmente nosso desenvolvimento interno.

*** Sermos como sepulcros; caiados e formosos por fora, entretanto – interiormente – cheio de ossos de mortos e de toda imundície.  (Evangelho de Mateus, capítulo 23 - versículo 27).

Quanto a data em que Cristo voltará à Terra (utilizando o corpo vital de Jesus, segundo os Ensinamentos Rosacruzes), no evangelho de Marcos (capítulo 13 – versículo 32) Cristo diz: “aquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos que estão no céu, nem o Filho, senão o Pai.

Sobre este assunto, Max Heindel, em Filosofia Rosacruz em P&R Volume II – pergunta 110, diz:

*** “Predizer que a vinda de Cristo ocorrerá numa data determinada será absurdo e um sinal de ignorância. Pode até ser presunçoso conjecturar a época aproximada em que ocorrerá o Segundo Advento, mas, segundo o autor, já que os ciclos precessionais, na medida em que estão ligados à evolução do ser humano, parecem começar com a entrada do Sol em Capricórnio, poderá haver uma manifestação nessa época. Se isso for correto, o Advento só poderá ocorrer daqui a três mil anos, pelo menos”.

Máximo Confessor foi um teólogo nascido em Constantinopla no ano de 580, oriundo de uma família aristocrática; abandonou esta condição para ser monge. Defendia a ideia (e a apresentou em vários concílios) de que Jesus e Cristo são duas naturezas distintas.

Para o aspirante rosacruz, este fato é uma realidade, sabedor de que Jesus cedeu seus corpos denso e vital para Cristo,  contudo  a aproximadamente dois milênio atrás, Máximo Confessor enfrentou sérios problemas por acreditar nisto: foi flagelado, sua língua e mão direita decepadas (impedido assim de falar e escrever respectivamente ) e – no exílio - faleceu em 13 de agosto do ano 662).

Existem antiquíssimos ícones (quadros de santos) que retratam Máximo Confessor revelando, ainda que simbolicamente no toque entre os dois dedos,  a natureza distinta entre:

*** Jesus
*** Cristo

João Cassiano (aproximadamente 365-435 d.c.), também monge, dizia:
-  Bem-aventurados aqueles que ouviram as palavras (faladas) de Cristo. Contudo, mais bem-aventurados aqueles que ouvem seus silêncios (seus atos).

Mas, isto fica para outro artigo...

12 de ago de 2018

Trilhar o Caminho

Imagem: O Caminho para Emmaus por Gemäld Von Robert Zünd 
por Gilberto Silos
Lucas 9 (57-62)
E aconteceu que, indo eles pelo caminho, lhe disse um: Senhor, seguir-te-ei para onde quer que fores.
E disse-lhe Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.
E disse a outro: Segue-me. Mas ele respondeu: Senhor, deixa que primeiro eu vá a enterrar meu pai.
Mas Jesus lhe observou: Deixa aos mortos o enterrar os seus mortos; porém tu vai e anuncia o reino de Deus.
Disse também outro: Senhor, eu te seguirei, mas deixa-me despedir primeiro dos que estão em minha casa.
E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus.
Lucas 9:57-62

A escolha, a decisão de trilhar o caminho da espiritualidade é um impulso interior, uma iniciativa do espírito, não produto de um momento de emoção ou fruto de um pensamento. É um ato de coragem serena, não mera bravata.

Sepultar os mortos e despedir-se dos seus é apegar-se a algo que oferece uma segurança ilusória, aparente. Assemelha-se ao sentimento que assaltou os hebreus no deserto quando ao sentirem falta e saudade das panelas de carne do Egito, erigiram o bezerro de ouro, ou à mulher de Lot que transformou-se em estátua de sal ao olhar para trás e contemplar a destruição de Sodoma e Gamorra. Simboliza uma forma de cristalização.

Para quem quer trilhar o caminho não existe uma só família estabelecida nos laços de sangue. A família é toda a humanidade, como dizia Tomas Payne. Somente esse estado de consciência pode libertar alguém da influencia do espírito de raça que engendra os sentimentos arraigados de clã, família e raça. Isso se torna possível através de uma ruptura com os paradigmas da humanidade comum, pois não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo.

A verdadeira espiritualidade é um caminho, uma trilha. Um caminho leva a um destino.

Consideremos como exemplo concreto, a rodovia que liga São Paulo a Presidente Prudente. Podemos estudá-la detalhadamente, consultando um mapa, calculando os quilômetros que separam as duas cidades, verificando em livros quais as estradas interessantes que a estrada atravessa.  Tudo isso pode ser muito atraente e interessante, mas não será assim que chegaremos  ao nosso destino. Se quisermos ir a Presidente Prudente teremos de iniciar a viagem.

Trilhar o caminho significa por em prática todos os conhecimentos adquiridos, modificar a própria vida, o comportamento, transformar-se constantemente em algo novo e diferente.

Esse processo de transformação é um compromisso sério, ou seja, é mais do que isso, é um comprometimento, uma responsabilidade.

Um cientista pode fazer uma grande descoberta que o projete mundialmente e ao mesmo tempo continuar a ser uma pessoa agressiva, amiga do álcool, das drogas ou de qualquer outro prazer mundano. A sua vida e o seu comportamento não afetarão a sua descoberta. O mesmo não se pode dizer da descoberta espiritual. Por ínfima que seja, ela produz um efeito direto sobre a pessoa. Força a mudança de hábitos e atitudes. Não acontece o mesmo com o ser humano comum, pois o mundo aceita novas verdades desde que não haja comprometimentos.

O objetivo do caminho da espiritualidade é a sabedoria, a totalidade do homema vitória sobre a dualidade (polaridade), a união consciente com Deus, o casamento místico, enfim a consciência cósmica.
O Caminho da Iniciação, do livro: Iniciação Antiga e Moderna de Max Heindel, Cap.: A Iniciação Mística Cristã (veja aqui)
Esse caminho deve ser trilhado com desapego. Os ensinamentos espirituais devem libertar o homem de suas velhas fixações. Porém, sempre há o risco de tornarem-no objeto de novas fixações; Acredita-se ter dado um passo à frente, quando na verdade houve apenas ua troca do objeto de apego. Mudou-se apenas de fixação. Em síntese, a trilha da espiritualidade é o caminho da constante transformação.

20 de mai de 2018

O Apóstolo em Cada Ser Humano



REF. Lucas 9:62
"E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus."

Para muita gente ainda contínua um mistério o significado real de a mulher de Lot ter se convertido em uma estátua de sal, após contemplar a destruição de Sodoma e Gomorra. É bom recordar que isso aconteceu porque ela olhou para trás, saudosa. ...

Segundo o Velho Testamento, as duas cidades celebrizaram-se como verdadeiros núcleos de licenciosidade. Eram, portanto, um centro de degeneração.

Encontramos aí um interessante simbolismo ou alegoria. Não se trata apenas de um relato bíblico. É algo muito mais profundo. Mais uma vez deparamos com a história do próprio homem, sempre às voltas com os desafios inerentes ao caminho do progresso espiritual.

Sodoma e Gomorra simbolizam o elemento que, por se corromper, perdeu a sua utilidade, e o seu lugar, dentro do processo evolutivo. A mulher de Lot representa aquele tipo humano incapaz de libertar-se de hábitos nocivos e ideias  ultrapassadas. Insensível a estágios ou vivências mais elevados, apega-se a estruturas bolorentas e enferrujadas, embora só possa sofrer prejuízos com essa resistência. Olhando para trás, demonstrou sua ligação com aqueles restos que se consumiam, ao invés de encetar uma nova busca.

É uma perfeita alegoria à cristalização.

O homem comum, é bom ressaltar, traz consigo uma tendência à acomodação. Se, do ponto de vista material, a vida que leva é relativamente "boa", opor-se-á tenazmente, a qualquer tipo de mudança, mesmo salutar à sua formação espiritual.
A acomodação, diante de qualquer análise, surge como algo pernicioso. No Universo tudo se encontra em constante movimento, sempre em direção a degraus superiores. A inércia, por ser contrária às leis naturais, gera reações às vezes violentas. O homem, por ser elemento integrante do contexto cósmico, não deixa de estar sujeito a essa lei.

As transformações constituem uma necessidade evolutiva. São uma manifestação da Lei de Deus, sempre objetivando abir mais amplos horizontes para a humanidade. O homem sofre porque resiste às transformações, insistindo em permanecer impenetrável aos raios da Luz Divina. Às vezes contempla a estrutura em que viveu durante multo tempo ruir fragorosamente. Mesmo assim, cede á tentação de olhar para trás observando demorada e nostalgicamente os escombros. É um indicador de sua cristalização. O curso da própria vida acabará por reintegrá-lo ao progresso. Isso, todavia, ocorre, quase sempre, à custa de muito sofrimento.
É importante "tomar do arado e não olhar para trás", como exortou o Cristo .

Conta-se que o conquistador romano Júlio César, quando aportou nas ilhas britânicas, ordenou a seus soldados que queimassem os navios. Assim, ninguém pensaria em voltar, recuando diante de um inimigo até então desconhecido.  Lutariam ou sucumbiriam.

A vida costuma encaminhar-nos  a situações complexas, em que o recuo se afigura impossível. Segurança interior, autoconfiança, fé, coragem, capacidade de adaptação, são testadas nessas ocasiões.

Temos que estar alertas e preparados para as mudanças. Elas acontecem quando menos esperamos.

Todos nós somos dotados de talentos, em maior ou menor grau de desenvolvimento. O uso desses dons determina nosso crescimento. Há ocasiões em que Deus requisita nossos préstimos em Sua Seara. Essa convocação divina pode implicar em mudanças, talvez até radicais, em nossas vidas. Atenderemos ao chamamento de nosso Divino Pai, ou continuaremos com a nossa já viciada rotina?
Não importa se somos inconscientes disso ou se nos encontramos acomodados, indiferentes ao sofrimento do mundo. Cedo ou tarde seremos chamados a servir. No Início talvez até resistamos. Mas chegará o momento da decisão, em que nossas existências tomarão outro rumo. Saulo era um ferrenho perseguidor dos cristãos. Na estrada de Damasco transformou-se: “Saulo, Saulo, por que me persegues? Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões." Saulo transformou-se em Paulo, assumindo uma nova realidade. Abandonou o invejável "status" de doutor da Lei. Teve a coragem de deixar os de seu credo. Renunciou suas amizades e suas posses, para abraçar as idéias do nazareno, um misto de blasfemo e impostor no entender dos fariseus.

É preciso, entretanto, una férrea disposição para atravessar as agruras dessa fase de transição. Incompreendido, injustiçado, vilipendiado até, o aspirante há de perseverar. Terá muita luta pela frente, sem dúvida. Mas a crueza da porfia não deve abatê-lo. É duramente provado. Cai. Ergue-se. Fracassa novamente. Anima-se de esperança. Aflige·se mortalmente com a decepção. Ascende mais uma vez. Na experiência renova-se. O mundo dele necessita. O Cristo necessita dele. Deus nele habita. Não há razão para temores. Vive na fonte do eterno Bem.

O caminho do apostolado é assim mesmo. Exige mudanças, Crucifica o eu inferior. É como o campanário de uma igreja: largo na base, estreitando-se à medida que sobe. No cume só resta a cruz. Não se pode olhar para baixo, para trás. Só resta subir sempre...
De um editorial da revista Serviço Rosacruz, agosto de 1978

1 de abr de 2018

SOBRE O (possível) FRACASSO DO LIVRO “CONCEITO ROSACRUZ DO COSMOS”

por Jonas Taucci

Então Jesus, tomando a palavra, tornou a falar-lhes em parábolas, dizendo: O Reino dos Céus é como um rei que preparou as bodas do seu filho. E mandou os seus empregados chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram vir. O rei mandou outros empregados, dizendo: Dizei aos convidados: já preparei o banquete, os bois e os animais cevados já foram abatidos e tudo está pronto. Vinde para às bodas! Mas os convidados não deram a menor atenção: um foi para o seu campo, outro para os seus negócios, outros agarraram os empregados, bateram neles e os mataram. O rei ficou indignado e mandou suas tropas, para matar aqueles assassinos e incendiar a cidade deles. Em seguida, o rei disse aos empregados: As bodas estão preparadas, mas os convidados não foram dignos dela. Portanto, ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes. Então os empregados saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a festa nupcial ficou cheia de convidados. Quando o rei entrou para ver os convidados observou ali um homem que não estava usando traje de bodas e perguntou-lhe: Amigo, como entraste aqui sem o traje de bodas? Mas o homem nada respondeu. Então o rei disse aos que serviam: Amarrai os pés e as mãos desse homem e jogai-o fora, na escuridão! Ali haverá choro e ranger de dentes. Porque muitos são chamados, e poucos são escolhidos. (Evangelho de Mateus – 22: 01 a 14)

Recordo-me de não haver muitas pessoas naquele restaurante vegetariano, final dos anos 80. Esta prática alimentar não estava tão difundida como hoje (TV, rádio, revistas, jornais, livros, comércio, redes sociais, artistas divulgando...).

Após a refeição, pedi as sobremesas; acompanhava-me o irmão probacionista José Gonçalves Siqueira. Falávamos sobre uma recente palestra minha, realizada no Centro Rosacruz de Santo André, com respeito a passagem bíblica acima, onde resumidamente, e à luz dos Ensinamentos da Sabedoria Ocidental, foi exposto:

1) REI – O Deus de nosso Sistema Solar.

2) FILHO – Cristo, o maior iniciado do Período Solar.

3) BODAS – O segundo advento de Cristo.

4) SERVOS – Ensinamentos Crísticos.

5) CONVITE A TODOS – A iniciação aberta a todos.

6) MORTE DOS SERVOS – Os que não aceitam a sequência do processo de evolução e “matam” os servos (recusam-se a receber o convite às bodas).

7) TRAJE – O Corpo Alma, que nos possibilitará este encontro com Cristo nos ares.

8) CHORO, RANGER DE DENTES E ESCURIDÃO – Os que não desenvolverem o Corpo Alma, e irão se atrasar na jornada evolutiva.

O irmão Siqueira elogiou minha palestra, mas disse:
- Você esqueceu de algo importante:

Suspendi a respiração por alguns instantes.

- Esta parábola - continuou meu amigo - Cristo direciona também à duas classes específicas, como informa o capítulo precedente de Mateus (21: 23 a 46), a saber

***SUMOS SACERDOTES.  Em hebraico Kohen Gadol. O mais alto posto religioso; coordenava os ofícios religiosos e sacrifícios no tabernáculo e posteriormente no Templo em Jerusalém. Para ocupar este cargo era necessário pertencer a linhagem de Levi, estudar horas por dia, dias por semana, durante anos.

*** ANCIÃOS DO POVO. Em hebraico Zaqén. Eram os representantes do povo para decisões religiosas, e com o passar do tempo, decisões políticas também.

E continuou:

- Unicamente nos acomodarmos em estudos, posições hierárquicas, cargos, frequências físicas, nos (diversos) meios espiritualistas, não nos fará – de forma alguma - tecer o Traje de Bodas; esta parábola foi a mensagem de Cristo (também) aos Sumos Sacerdotes e os Anciãos do Povo, na verdade, tipos comportamentais. Há que se praticar os preceitos Crísticos!

E concluiu:

- Max Heindel considerou um possível fracasso o livro Conceito Rosacruz do Cosmos, ao escrever em sua Carta aos Estudantes #16:

Alguns só se interessam pela concepção intelectual, e, a menos que o livro dê ao estudante um desejo fervoroso de transcender o caminho do conhecimento e prosseguir pelo caminho da devoção, em minha opinião, esse livro será um fracasso”.

Lembrei que o caminho rumo ao probacionismo, inicia-se pelo Curso Preliminar, cuja fonte é o Conceito Rosacruz do Cosmos.

Fica evidente que esta colocação do Sr. Heindel (fracasso), não está relacionada em termos de divulgação, vendagem, visitas, “curtidas” ou consultas, haja visto que o referido livro está traduzido (física e virtual) para os principais idiomas do mundo, de forma gratuita.

O sucesso (ou não) desta obra, é individual a cada ser humano.

Ressaltando ainda que este “traje de bodas”, citado na parábola acima, está contido no sagrado símbolo rosacruz, e descrito como consegui-lo, no Ritual de Cura (...a estrela dourada simboliza o dourado manto nupcial tecido através de uma vida pura).

Vai a sugestão para leitura, o livro Como conheceremos Cristo quando ele voltar”, (baixe aqui)  de Max Heindel. Obra centrada no “traje de bodas”.

As saladas de frutas vieram, mas para mim a verdadeira (e deliciosa) sobremesa, foi o complemento da palestra, oferecido pelo irmão José Gonçalves Siqueira... (veja aqui, biografia de José Gonçalves Siqueira)

OUTRAS SUGESTÕES DE CONSULTA:

Nosso interior: para detectar os “Sumo Sacerdotes” e “Anciões do Povo”.
Livros de Max Heindel:
-  Conceito Rosacruz do Cosmos: Diagramas 02, 06, 14 e capítulo XV.
-  Filosofia Rosacruz em P&R / Volume II / Pergunta # 133.
-  Cartas aos Estudantes # 16.
Bíblia: Novo Testamento, Evangelho de: - Mateus 21: 23 a 46. e Mateus 22: 01 a 14.

21 de jan de 2018

A Circuncisão - Uma Interpretação

"A Apresentação no Templo", Philippe de Champaigne, 1648

REF. Lucas 2:21-24

"E, quando os oito dias foram cumpridos, para circuncidar o menino, foi-lhe dado o nome de Jesus, que pelo anjo lhe fora posto antes de ser concebido.
E, cumprindo-se os dias da purificação dela, segundo a lei de Moisés, o levaram a Jerusalém, para o apresentarem ao Senhor
(Segundo o que está escrito na lei do Senhor: Todo o macho primogênito será consagrado ao Senhor);
E para darem a oferta segundo o disposto na lei do Senhor: Um par de rolas ou dois 
pombinhos.” 

Com relação a circuncisão no oitavo dia, citado por Lucas, encontramos a referência no Gen. 17:12, 21:4 e Lev. 12:3.

A frase “como fora chamado pelo Anjo, antes de ser concebido no ventre de sua mãe” é uma prova do renascimento. Ou seja: “antes” já existia, já tinha nome. Essa existência anterior pertence a todos nós, pois Jesus é apenas o nosso irmão mais velho, “o primogênito entre muitos irmãos” (Rom. 8:29)

Segundo Lev. 12:2-5 as mães deviam apresentar o primeiro filho do sexo masculino ao templo, 40 dias após o parto. Se o filho era primogênito (bekor) a mãe deveria levá-lo pessoalmente, apresentá-lo e consagrá-lo a Deus. (Ex. 13:2-12). Entretanto como os da tribo de Levi é que tinham função sacerdotal oficial (Num 3:12-13), os primogênitos de outras tribos eram “resgatados” com a oferta de cinco ciclos de prata (Num 18 15-16). Sendo Jesus da tribo de Judá, fez Maria a oferta legal por ele, isentando-o do sacrifício oficial.

Em vista disso Lucas não distingue as duas cerimônias: a purificação de Maria e a consagração de Jesus, mas engloba-as numa só palavra: o resgate deles.

Segundo a citação feita por Lucas do Ex.:13:2 e 12, onde se lê textualmente: “todo macho que abrir a vulva será chamado santo para o Senhor”, vê-se claramente que o nascimento de Jesus foi normal, não havendo virgindade física durante ou depois do parto como desejam alguns. Se os fatos tivessem sido anormais, Maria estaria dispensada da Lei.

Para sua purificação Maria ofereceu um sacrifício (Lev 12:8) de um casal de rolinhas ou de dois pombos jovens (borrachos) que se permitia aos pobres, para substituir o cordeiro, o qual não poderiam comprar.

Todos aqueles que realizaram as bodas místicas internas da natureza humana com a divina, põem-se a serviço de Deus e, portanto, devem circuncidar-se, ou cortar ao redor de si todos os apegos, para que tenham como se não tivessem; possuam sem ser possuídos; usem como por empréstimo; utilizem tudo como administradores dos talentos divinos, recordando-se de que “nada trouxemos para esse mundo, e sem dúvida, nada dele poderemos levar”. (ITim, 6:7).

Renúncia de coração para servir-se das coisas e com elas servir aos outros, com desapego a recompensas, a gratidão e a retribuições quaisquer. Esta é a “circuncisão interna” que todos devemos cultivar. Ela inclui o desapego até mesmo de ideias e concepções quanto aos laços sanguíneos, aos afetos e semelhantes, para que apenas o puro amor que o Divino verte de Si possa permanecer como manifestação natural. Este desapego (circuncisão) é inevitável quando, pelo encontro com o Eu superior, adentramos o Templo interno, contrastando a realidade divina interna com a transitoriedade material externa.

Mas esse desapego não é levado a termo enquanto não se faz a purificação da personalidade. E para isso devemos esperar 40 dias. (“quarenta dias” é simbólico - pode significar anos e até vidas). Para o candidato que já chegou ao encontro com o divino interno, a tarefa é mais fácil. Realmente o nascimento do primogênito (Bekor), consagrado a Deus requer o mergulho nas vidas anteriores conscientizando todas as experiências adquiridas desde o início da peregrinação evolutiva até a conquista da mente (passando pelos estados de consciência mineral, vegetal e animal). Corresponde à quinta iniciação menor e nos põe acima dos opostos de simpatia e antipatia; em suma, em ligação igual com todos os seres.

Uma vê purificados os veículos denso, etérico, de desejos e mental, apresentamo-nos ao Templo, ao Cristo Interno, como oferenda, submissão e consagração para o SERVIÇO. Esta cerimônia é simbolizada pela oferta de um cordeiro (ou de pombas como vimos no evangelho de Lucas). Isto demonstra que a graça do “encontro” pressupõe o sacrifício da parte animal, ou melhor da entrega da parte animal já purificada.

Daí em diante só o espírito prevalece,. Como disse São Paulo: “Não mais eu quem vive, mas o Cristo em mim”. O corpo se converte em alegre vivenda porque não representa mais uma prisão; e a vida passa a ser uma SEARA.

                                                  Publicado na revista Serviço Rosacruz, de  janeiro de  1976