24 de dez de 2016

O Nascimento de Jesus (segundo Lucas, 2:1-7)

REF. Lucas cap. 2 - vers. 1 a 7. (*)

Mateus e Lucas são os dois evangelistas que narram o nascimento de Jesus. Lucas era médico e discípulo de Paulo. Escreveu seu evangelho em grego e tomou como base o que lhe contou Maria, sofrendo de outra parte, influência de Paulo. Mateus escreveu o seu em hebraico e dirigiu-o aos judeus, no esforço de convencê-los de que Jesus Cristo era realmente o Messias prometido.

O Cristianismo Esotérico (Filosofia Rosacruz) demonstra que os evangelhos são MÉTODOS DE INICIAÇÃO. Isto explica as aparentes contradições que existem entre eles, principalmente entre os sinóticos, que seguem um esquema semelhante de fatos da vida de Jesus.

O Evangelho de Lucas desenvolve uma linha mística. O evangelho de Mateus traça um método racional, voluntarioso. No evangelho de Lucas o nascimento de Jesus ocorre numa atmosfera de humildade, de simplicidade, longe de espectadores, de perseguições: numa simples estrebaria, o menino colocado numa manjedoura, a visita dos pobres pastores. Em Mateus Ele nasce em sua casa; recebe a visita dos Reis Magos que lhe trazem como presentes ouro, incenso e mirra. Herodes fica receoso de que seu trono passe ao novo Rei de Israel (das profecias) e manda matar as crianças belemitas. Em Lucas é sempre Maria (a imaginação, a intuição, o coração, o pólo feminino) que recebe as visitas e as ordens do Anjo. Em Mateus é José ( a vontade, a razão, a mente, o pólo masculino) que recebeu os avisos.

O fato de os evangelhos tomarem como base a vida de Jesus não quer dizer que sejam uma simples rememoração histórica. Na verdade, a biografia de Jesus oculta intencionalmente MEIOS ESOTÉRICOS de aprimoramento, para os Nove Mistérios Menores ou Nove Iniciações Menores.

Vejamos aqui uma interpretação para a narrativa de Lucas no  cap. 2: 1 a 7

A observação de Jesus é o primogênito não implica na necessidade de que posteriormente Maria viesse a ter outros filhos. O sentido é outro: Jesus era o Békor, isto é, o que pertencia a Deus e devia ser-Lhe consagrado desde o nascimento. Isto corresponde à explicação esotérica: primogênito é o iniciado que se livrou das limitações referentes ao passado (períodos de Saturno, Solar e Lunar e metade marciana do Período Terrestre); o que conscientizou as experiências passadas dos diversos graus de consciência e os incorporou como alma. Portanto, pertence a Deus, está livre para etapas superiores.

Lucas só fala na manjedoura. Mas a tradição cristã enriqueceu-lhe a narrativa com o pormenor lendário de que Jesus foi colocado entre um boi e um jumento. Essa tradição foi inspirada em Isaías: 1:3 e em Hebreus 3:2. “Serás conhecido no meio de dois animais”.

Interpretação Esotérica:

A estória do recenseamento é simbólica. Não era praxe romana a exigência de que os cidadãos se locomovessem para ser recenseados na cidade natal. Os romanos eram ótimos juristas e eminentemente práticos: não iriam arriscar-se a movimentações de grandes massas de povo que deviam controlar.

Na cidade de Belém havia uma escola iniciática de grande valor espiritual, mantida pelos essênios e tradicional no profetismo judaico. O significado etimológico de Belém é “casa de pão”, daquele pão transubstancial que o candidato à Iniciação deve formar com os grãos de trigo das oportunidades diárias de crescimento anímico, moendo-os, assando-os e formando o pábulo – o pão vivo – que cria e alimenta a alma.

José dirigir-se a Belém significa: através da razão, o candidato busca conscientemente seu objetivo espiritual na vida. José vai acompanhado de sua mulher Maria: o aspirante rosacruciano desenvolve o lado místico, paralelamente ao ocultista. Maria está grávida: o Aspirante está prenhe de realizações internas e próximo ao despertar iniciático. 

Depois vem o nascimento, a culminância do longo período de preparação, o amadurecimento da alma. E vem através de Maria (o lado Místico, a imaginação pura), pois a Iniciação é um preparo através do Corpo Vital, por meio de melhores hábitos, de serviço altruísta, de oração, de meditação, de retrospecção, etc., num campo interno. Só mais tarde atinge o intelecto. A igreja tomou o sentido do nascimento em Belém (casa do pão) como a hóstia, símbolo do corpo de Cristo (interno), na comunhão que se há de verificar dentro de nós.

Belém (casa do pão) era a cidade de Davi (o bem amado), isto é o santuário do amor feito homem, o corpo humano quando já espiritualizado.O retorno de José a Belém, cidade de seus antepassados é uma rememoração de vidas anteriores, um processo iniciático, uma revisão consciente e global do caminho evolutivo percorrido.

Neste santuário de amor, feito homem (o corpo espiritualizado) a Vontade iluminada (José) em união com a imaginação (Maria) geram Himmanuel (Deus conosco ou Deus em nós ou o Cristo Interno) pelo despertar do candidato à realidade divina interna (sem ostentação nem espectadores) em humilde isolamento. O estábulo é próprio para os animais, isto é, o encontro da consciência humana com sua realidade divina há de se dar no corpo material, no candidato ainda humano, com defeitos, embora com seus instintos já domesticados (o boi e o jumento)

A criança é o fruto espiritual. Foi deitada na manjedoura (mente concreta) onde as necessidades humanas (os animais) se alimentam (de idéias). Só então é que José (a Mente) vê Jesus: a mente vê descer à pequenez de sua percepção o espírito que se faz consciente.

Esta concepção é realmente virginal, porque só o espírito é que pode realizá-la em nós. Tomamos consciência de que já existe e de que é divinamente concebido. Evidentemente o nascimento só poderá realizar-se quando se completarem os dias, isto é, quando o amadurecimento interno tiver chegado a termo. Daí que sempre insistamos: “sê vigilante e esforça-se paciente e perseverante, sem prazos, sem impaciência, sem vistas aos frutos da colheita. Não pergunte em que ponto você e quanto falta ainda. Ele virá como um ladrão à noite inesperadamente: “quando o discípulo estiver preparado o mestre aparece”....
Fonte: Revista Serviço Rosacruz - edição especial de Natal, 1974

(*) Lucas: Cap.2: 1 a 7
E aconteceu naqueles dias que saiu um decreto da parte de César Augusto, para que todo o mundo se alistasse
(Este primeiro alistamento foi feito sendo Quirino presidente da Síria).
E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade.
E subiu também José da Galiléia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém (porque era da casa e família de Davi),
A fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida.
E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz.
E deu à luz a seu filho primogênito, e envolveu-o em panos, e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem.