21 de jan de 2018

A Circuncisão - Uma Interpretação

"A Apresentação no Templo", Philippe de Champaigne, 1648

REF. Lucas 2:21-24

"E, quando os oito dias foram cumpridos, para circuncidar o menino, foi-lhe dado o nome de Jesus, que pelo anjo lhe fora posto antes de ser concebido.
E, cumprindo-se os dias da purificação dela, segundo a lei de Moisés, o levaram a Jerusalém, para o apresentarem ao Senhor
(Segundo o que está escrito na lei do Senhor: Todo o macho primogênito será consagrado ao Senhor);
E para darem a oferta segundo o disposto na lei do Senhor: Um par de rolas ou dois 
pombinhos.” 

Com relação a circuncisão no oitavo dia, citado por Lucas, encontramos a referência no Gen. 17:12, 21:4 e Lev. 12:3.

A frase “como fora chamado pelo Anjo, antes de ser concebido no ventre de sua mãe” é uma prova do renascimento. Ou seja: “antes” já existia, já tinha nome. Essa existência anterior pertence a todos nós, pois Jesus é apenas o nosso irmão mais velho, “o primogênito entre muitos irmãos” (Rom. 8:29)

Segundo Lev. 12:2-5 as mães deviam apresentar o primeiro filho do sexo masculino ao templo, 40 dias após o parto. Se o filho era primogênito (bekor) a mãe deveria levá-lo pessoalmente, apresentá-lo e consagrá-lo a Deus. (Ex. 13:2-12). Entretanto como os da tribo de Levi é que tinham função sacerdotal oficial (Num 3:12-13), os primogênitos de outras tribos eram “resgatados” com a oferta de cinco ciclos de prata (Num 18 15-16). Sendo Jesus da tribo de Judá, fez Maria a oferta legal por ele, isentando-o do sacrifício oficial.

Em vista disso Lucas não distingue as duas cerimônias: a purificação de Maria e a consagração de Jesus, mas engloba-as numa só palavra: o resgate deles.

Segundo a citação feita por Lucas do Ex.:13:2 e 12, onde se lê textualmente: “todo macho que abrir a vulva será chamado santo para o Senhor”, vê-se claramente que o nascimento de Jesus foi normal, não havendo virgindade física durante ou depois do parto como desejam alguns. Se os fatos tivessem sido anormais, Maria estaria dispensada da Lei.

Para sua purificação Maria ofereceu um sacrifício (Lev 12:8) de um casal de rolinhas ou de dois pombos jovens (borrachos) que se permitia aos pobres, para substituir o cordeiro, o qual não poderiam comprar.

Todos aqueles que realizaram as bodas místicas internas da natureza humana com a divina, põem-se a serviço de Deus e, portanto, devem circuncidar-se, ou cortar ao redor de si todos os apegos, para que tenham como se não tivessem; possuam sem ser possuídos; usem como por empréstimo; utilizem tudo como administradores dos talentos divinos, recordando-se de que “nada trouxemos para esse mundo, e sem dúvida, nada dele poderemos levar”. (ITim, 6:7).

Renúncia de coração para servir-se das coisas e com elas servir aos outros, com desapego a recompensas, a gratidão e a retribuições quaisquer. Esta é a “circuncisão interna” que todos devemos cultivar. Ela inclui o desapego até mesmo de ideias e concepções quanto aos laços sanguíneos, aos afetos e semelhantes, para que apenas o puro amor que o Divino verte de Si possa permanecer como manifestação natural. Este desapego (circuncisão) é inevitável quando, pelo encontro com o Eu superior, adentramos o Templo interno, contrastando a realidade divina interna com a transitoriedade material externa.

Mas esse desapego não é levado a termo enquanto não se faz a purificação da personalidade. E para isso devemos esperar 40 dias. (“quarenta dias” é simbólico - pode significar anos e até vidas). Para o candidato que já chegou ao encontro com o divino interno, a tarefa é mais fácil. Realmente o nascimento do primogênito (Bekor), consagrado a Deus requer o mergulho nas vidas anteriores conscientizando todas as experiências adquiridas desde o início da peregrinação evolutiva até a conquista da mente (passando pelos estados de consciência mineral, vegetal e animal). Corresponde à quinta iniciação menor e nos põe acima dos opostos de simpatia e antipatia; em suma, em ligação igual com todos os seres.

Uma vê purificados os veículos denso, etérico, de desejos e mental, apresentamo-nos ao Templo, ao Cristo Interno, como oferenda, submissão e consagração para o SERVIÇO. Esta cerimônia é simbolizada pela oferta de um cordeiro (ou de pombas como vimos no evangelho de Lucas). Isto demonstra que a graça do “encontro” pressupõe o sacrifício da parte animal, ou melhor da entrega da parte animal já purificada.

Daí em diante só o espírito prevalece,. Como disse São Paulo: “Não mais eu quem vive, mas o Cristo em mim”. O corpo se converte em alegre vivenda porque não representa mais uma prisão; e a vida passa a ser uma SEARA.

                                                  Publicado na revista Serviço Rosacruz, de  janeiro de  1976

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