5 de jun de 2012

A Comunidade Cristã

por Osvado Madureira

REF. Atos dos Apóstolos, cap. 5 - vers.32 a 36
Após a partida de Cristo Jesus da Terra, o legado da divulgação do Cristianismo, no plano físico, passa a ser de responsabilidade da própria humanidade. Doze Apóstolos pioneiros, representando doze Hierarquias Divinas, assumem esse árduo trabalho: recebem o "batismo do fogo", curam enfermos e predicam o Evangelho.

Pedro tem um papel preponderante na formação da primeira Comunidade Cristã: "...pois Eu te digo que tu também és Pedro e sobre tua pedra edificarei a minha igreja, e as portas do hades não prevalecerão contra ela; dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares pois na terra será ligado nos céus e o que desligares na terra será desligado dos céus. " (Mateus 16:18 e 19).

A Comunidade Cristã reunia um grupo incomum de pessoas. Estas se propuseram a seguir o seu Cristo interno, o Eu Superior, e edificavam, através do árduo trabalho altruísta e amoroso, a egrégora dourada interior, banida das trevas.

Ananias e Safira não estão em sintonia com esse grupo e é a eles que vamos enfocar a nossa atenção.

Podemos e devemos nos perguntar: o que há de errado em vender uma propriedade, reter parte do dinheiro e dar a outra parte à Instituição Cristã? E porque pagar com a morte se assim não procedermos?

A linguagem bíblica as vezes parece confusa, sombria e até incompreensível, porem é riquíssima de verdades espirituais ocultas.

Ananias e Safira estão no limiar de atender ao Cristo Interno, mas o apego aos seus bens materiais ainda é uma pedra de tropeço em seus caminhos. São Egos que vivem naquele momento um conflito interno, sabem que devem dar o passo decisivo para atender ao chamado interno, mas falta-lhes a força de vontade para fazê-lo, sabem que têm de libertar-se dos grilhões da personalidade e dos apegos do mundo, estão convencidos do caminho que devem tomar, porém não estão persuadidos a fazê-lo; a balança de seus valores pende para a matéria, em detrimento do Espírito. Incapazes de servir ao Graal. Ananias e Safira pactuam com Satanás (o tentador). Astutamente manipulam indevidamente seus dons e virtudes a serviço de sua personalidade. Esta, por sua vez, lhes garante o poder temporal mundano para desfrutar do falso reinado. Tentam conviver com suas duas naturezas, unindo a personalidade viciosa e egoísta à Natureza Superior que requer virtudes e altruísmo. Mas não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo , ou se serve ao Eu superior ou ao Eu inferior, quando se serve a um, o outro se afasta; é lei natural que o inferior deve servir ao superior por livre arbítrio.

Pedro, conhecedor da natureza humana, percebe a trama do casal e aborda Ananias publicamente no templo, revelando sua fraude contra seu próprio Ego.

          Num sentido figurativo os argumentos bíblicos significam:
"vender as propriedades"; é desapegar-se de todo elo que escraviza o Ego, é libertar o Espírito da matéria,

"reter parte do preço"; é não dar-se integralmente em favor da humanidade, é manipular indevidamente dons adquiridos a favor da personalidade,

        "dinheiro da venda"; é a virtude extraída do desapego da matéria,

"depositar aos pés dos apóstolos": a verdadeira dádiva leva consigo o doador, é edificar em si o Corpo-Alma, é dar mais um passo para integrar-se ao contexto da evolução.

         "Ananias tombou e expirou ": Ananias foi resgatado para a vida mundana.

Por ora Ananias fracassa, a personalidade Ananias foi mais resistente e impediu sua Natureza Superior de tomar seu devido lugar, o de dar-se amorosamente e altruisticamente no altar do sacrifício pela humanidade e, então, Ela se retira. "Os jovens" (Almas novas) o resgatam e o sepultam na vida mundana, é dela que Ananias deverá extrair a virtude que um dia o libertará dos apelos do mundo, e assim Ele estará pronto para seguir o seu Mestre, o Eu Superior. Finalmente o seu ARMAGEDON, a luta interna entre a personalidade e a Natureza Superior, terá como vencedora esta última.
A história se repete com Safira, cujo destino a colocou unida a Ananias para juntos resolverem um problema comum. Todo homem tem dentro de si uma mulher. Esta representa a sua outra metade como "Energia criadora" , potente para ser transmutada nas miríades formas que o poder criador pode assumir epigenicamente.

Ananias e Safira , Vontade e Imaginação, caminham juntas e se completam na Atividade do trabalho do mundo, devem adquirir o mérito, cuja essência alimenta a Alma. Unidas terão de edificar sua egrégora fundamentada na pedra do seu Ser, terão de transformar-se num fulgurante diamante talhado e polido, deverão servir ao "Cristo Interno, o Senhor Absoluto".

A humanidade para integrar-se à Comunidade Cristã deve também , vencer a prova do "DESAPEGO". Esta é a luta de todos nós seguidores de Cristo. O desapego às posses mundanas, à sensualidade, à arrogância , à ganância, à mentira, enfim a todos os vícios da personalidade, deve estar fundamentado em dar-se com a dádiva. Não se pode fraudar contra nossa própria Natureza Superior quando assumimos o compromisso de servi-la; se assim o fizermos estaremos nos condenando ao ostracismo no Mundo. O desapego promove a reforma de nossas vidas e coloca-nos rumo à Iniciação. Este é o objetivo que devemos assumir para vivenciar a nova e verdadeira identidade, a da transformação do nosso Deus latente em Deus potente e virtuoso.

Publicado no ECOS da Fraternidade Rosacruz – Sede Central do Brasil – Jan/Fev 1999
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